
sábado, 19 de setembro de 2009
DEU NO BV! Via nova "Anjos Covardes" no Baú

EDITORIAL(ll) TUDO A SEU TEMPO
sexta-feira, 31 de julho de 2009
EDITORIAL(I)

Aprendendo a ser um Montanhista
Aprendi a escalar sozinho e antes de completar 15anos eu ja havia escalado as principais escaladas do Marumbi e tambem já ensinava e guiava muitas pessoas. Por anos a fio fabriquei a maioria de meus equipamentos, criei clubes e associações de montanhismo e escalada e guiei e ensinei todas as gerações de escaladores e montanhistas que surgiram nestes anos de forma direta e indireta. Hoje estou com 52 anos de muitas montanhas, escaladas e rock and roll e até hoje a razão de eu acordar são as montanhas e as escaladas e como nos primeiros anos, abro vias constantemente e estou constantemente na montanha ou voltando para elas; não parei nem um instante ,apezar de alguns "pseudos" terem apostado que eu jamais voltaria a escalar depois de meu acidente.
Nestes anos todos o meu relacionamento com as montanhas e seu universo, foi mais além do fato de eu me transformar em um "esportista" ou um Marumbinista, eu queria ser um montanhista como aqueles que eu via nas fotos preto e branco, nos raros e velhos livros que chegavam em minhas mãos quando percebi que as montanhas existiam e que me apaixonei por elas e elas estavam espalhadas por ai.
Frente a essa realidade e em uma época em que não havia futuro, pois vivíamos em uma época onde as diferenças políticas separavam as pessoas, eu optei por ser um montanhista, como “personagem”, neste curto período de consciência que é a vida e através desta analogia me relacionar com a existência(existem vários personagens que você pode assumir como seu, nesta brincadeira de descobrir o que é ser "isso" e antes de morrer).
Sou um montanhista e tudo que faço e treino são para utilisar em montanhas, mas confesso que uso a escalada como um "exercicio nobre" e sempre valorizei ao escalada natural e o solo, manifestações da “Arte do Movimento na Vertical”, nome que batizei essas atividades, para meu próprio deleite e da qual sou um eterno aprendiz ; também me divirto muito pelos big walls da vida(deliciosa engenharia), mas sempre me relacionei com meu equipamento, como um mecânico ou um arqueiro, se relacionam com os seus, com profunda paixão e intimidade, para que sejam a extensão do meu corpo e uma expressão de minha inteligência. Nunca carreguei meu equipamento na mochila, como sinônimo e garantia de minha coragem e nunca baixei uma montanha ou via até meu nível, para que pudesse "fazê-la", fiz por merecer cada uma delas e tenho como predicado minhas cicatrizes e surras que ganhei cada vez que verdadeiramente e diretamente me relacionei com o lado de fora e a ponta da corda e com a minha sincera intenção de ser um montanhista e de aprender e tento até hoje, ser merecedor desta maravilhosa manifestação, dessa arte que tanto me fascina.
Voltando ao Marumbi, mantive em segredo minhas idas ao Marumbi, de meus pais, até quando no inicio de 1974 eu tive um acidente de rapel e não foi mais possível esconder deles minha atividade, que eu chamava de “excursão do colégio”. Pra minha surpresa meu pai me ajudou a comprar meu primeiro equipamento, que na época, não passava de uma corda de nylon de 30 mts, mochila, kichute e um par de joelheiras de futebol para usar nas chaminés e fendas. A partir daquele momento, com o consentimento dos meus pais, eu me tornei um montanhista; eu tinha 15 anos. A partir daí, toda minha vida aconteceu do lado de fora, no meio da chuva, vento, sol e frio, exatamente como eu escolhi.
É verdade que o montanhismo e a escalada de hoje é um retrato do homem moderno e existem muito mais razões “palpáveis e justificáveis” para tornar-se um montanhista ou um escalador, do que tínhamos 40 anos atrás. Hoje existe todo o tipo de sedução e “vantagens” diretas e econômicas, que vão desde alguns “trocados e notoriedade" a um cargo de “confiança” em alguma pocilga. (Isso faz com que algumas pessoas tentem se parecer com “um de nós”).
Mesmo com todos os "Piolhos e Satelites"(Nome de uma nova via que abri com karina(8+),por aí, existe "algo" que não muda na prática do montanhismo, que é tirar as pessoas de dentro de suas casas e colocá-las do lado de fora, em situações em que faltam argumentos para o seu cérebro agir de maneira vulgar e ele então não encontra explicações "vulgares"para as coisas que se revelam na sua frente, então ele se cala e neste momento surge algo novo e original, e assim começa a paixão pelas montanhas e voce nunca mais volta pra casa..."só passa la para pegar uns treco"
Bito Meyer, Montanhista
Entrevista com Bito Meyer, uma lenda do montanhismo brasileiro
Por Filippo Croso 11/03/2008
Portal Webventure http://www.webventure.com.br/bike/conteudo/noticias/index/id/21903?pag=1
Na quarta feira, dia 05 de março, O CAP (Clube Alpino Paulista) recebeu Bito Meyer, que fez uma palestra sobre sua trajetória de 40 anos de escalada (ele tem hoje 50 anos de idade).Pude presenciar uma das palestras mais envolventes que já estive, com histórias de vida, espírito de comunhão com a natureza e a montanha, e o grande desconhecido interior.A foto de um movimento de escalada podia passar rápido, mas a foto do Bito com seus 20 anos de idade, viajando em cima (do lado de fora) do trem da morte na Bolívia, permaneceu um tempo, enquanto ele relatava aquele estado de espírito de buscar o "lado de fora", de descobrimento e criatividade, que é tão característico de quem escala.Apaixonado pela escalada solo, Bito é o exemplo de uma pessoa que vive e pratica a sua filosofia de vida, com simplicidade e coração, espiritualidade e desprendimento, e em plena atividade (conquistou recentemente a via Cria Cuervos D6 7º E5, 1200m, na Pedra Riscada, e solou pela segunda vez a via Leste no Pico Maior de Friburgo, vinte anos depois da primeira, no final de 2007).
Acompanhe a entrevista exclusiva com o montanhista:
Alegrias, frustrações e a nova geração
Essa é uma pergunta muito complexa e eu não saberia respondê-la em poucas palavras, porque envolve a fragilidade humana na sua essência e teríamos que saber até onde o risco influenciaria a prática de uma arte, e até onde a idade é um fator essencial para a perfeição. Eu não enfrentaria um velho que há 50 anos exercita e pratica artes marciais e por outro lado dificilmente um homem sábio que conheceu o amor e que possui uma família se arriscaria a ponto de faltar para ela, pois "ela" é o essencial.
A vida e a montanha
Personalidades e História Bito Meyer, histórias e conquistas de um expert, uma lenda do montanhismo

Bito Meyer foi um dos primeiros brasileiros a escalar montanhas de extrema dificuldade como o Fitz Roy, Cerro Torre e Agulha Poincenot (um dos recordes de velocidade de ascensão mantidos até hoje) na Patagônia, Bolívia, El Captain nos EUA e a ter conquistado em terras brasileiras centenas de vias de escalada por todo o país.
Bito Meyer continua realizando grandes conquistas, como por exemplo a face sul da Pedra Riscada (Veja matéria: www.brasilvertical.com.br), que é o 5º maior monolito do planeta. A conquista da Via "Cria Cuervos" (7 E5 D6) com seus 1200m de parede que foi realizada ao longo de cinco anos e segundo o próprio Bito foi a via mais difícil e arriscada que ele já conquistou até hoje.
A nova geração de montanhistas deposita grande respeito e admiração por Antônio Carlos Meyer, ou simplesmente Bito, tido como um dos grandes nomes do alpinismo no Brasil. Bito nasceu em Curitiba, em 5 de julho de 1957, filho de Albino Meyer e Odila Meyer, e traz seu apelido, desde os tempos de infância recebendo por ser "meio pesado", o apelido de Chumbito que mais tarde, graças à mania nacional de abreviar tudo, resultou no atual Bito. Até os treze anos de idade, viveu em Alegrete, Rio Grande do Sul, onde vivia em constante contato com a vida ao ar livre, o campo, a fauna e a flora local.Certa ocasião acompanhou o pai numa pescaria, fato que acabou se tornando na faísca que faltava para incendiar a fogueira. Daí para frente a sede de mato era tanta, que resolveu ingressar no escotismo, onde permaneceu alguns meses, até descobrir, que sabia mais que eles. Mais tarde voltou para Curitiba, dando continuidade aos seus estudos. Em janeiro de 1970, num belo fim de semana, resolveu conhecer, em companhia de três colegas, o então desconhecido (para eles) Marumbi. O quarteto resolveu subir o Abrolhos, num passeio que prometia ser um sucesso, se não fosse o fato de na descida, terem entrado na picada do rio seco, que obrigou o destemido quarteto a mais de seis horas de penosa caminhada até chegarem a Estação do Marumbi. Naquele dia, Bito jurara, por tudo que é santo, que não voltaria mais ao Marumbi.De fato, como todo montanhista que se preza, no dia 14 de março voltava ao Conjunto e fazia a sua primeira escalada "técnica", a Bandeirantes no mesmo Abrolhos.Em meados de 1970, Bito e mais alguns amigos, resolveram conhecer o Anhangava. Saíram de Quatro Barras, traçando uma linha reta até algumas paredes que viam a distância e que não tinham a certeza ser o Anhangava, pois ninguém em Quatro Barras, sabia onde era o tal morro Anhangava. Os nativos apenas conheciam o morro da Santa. Na falta de informações mais precisas, saíram transpondo fazendas, casas, riachos, correndo de cachorros, até chegarem as almejadas paredes. Esgotaram todas as possibilidades que as pedras ofereciam escalando sempre com segurança de cima, pois a maioria das vias escaladas não estavam grampeadas.
Daí para frente, não sossegou mais tendo virado todos os cantos da Serra (Serra da Prata, Pico Paraná, Arenitos de São Luiz do Purunã, algumas grutas, etc...) e que culminou com a 1ª Expedição Brasileira em 1973, ao Pico Illimani (Face Oeste) na Bolívia, onde escalou gelo pela primeira vez, acompanhado dos amigos Danilo, Leonel, Inglês. No Brasil, conheceu quase todas as montanhas escaláveis incluindo à "Pássaro de fogo" no Rio de Janeiro, tida como uma das escaladas mais difíceis no Brasil.
Bito é um incansável defensor da "escalada com segurança de cima", pois acredita que este sistema de escalada oferece mais vantagens do que as rotas pré-estabelecidas (grampeadas). A escalada com segurança de cima, oferece condições supremas e de todos os níveis aos montanhistas, que precisa seguir uma linha prefixada, ganhando assim mais liberdade nos movimentos, que por conseqüência tornam-se estes movimentos mais harmônicos. Com este sistema, o montanhista pode escapar naturalmente das situações que a pedra lhe impõe, de acordo com sua situação, condição e capacidade afinal, "a montanha não é um inimigo a enfrentar e sim um amigo a freqüentar".Bito cita o caso da via Principantes (no Anhangava), escalada que muitas vezes subiu em livre com segurança de cima, sem maiores dificuldades, até que um dia colocou-se um verdadeiro paliteiro no local, desvirtuando uma belíssima rota natural. Bito, vêm de um tempo, onde o importante era escalar e conquistar, pouco importando se batia ou não grampos. Hoje em dia, existe a mania de considerar rota conquistada somente as grampeadas, que muitas vezes levam nomes pomposos, e que nem sempre são concluídas, porque seus autores não conseguem entender que alpinismo não é uma coisa doméstica.
Alguns montanhistas infelizmente estão mais interessados em publicidade em torno de seus nomes, em entrarem para a posteridade batizando alguma escalada, do que propriamente, em escalar.Na década passada, Bito recorda-se que o montanhismo era feito "meio na louca", laçava-se grampo, amarrava-se corda na cintura, usava-se de tudo que é meios e artifício para subir, todo mundo se bitolava no Anhangava. Nesta época conheceu Leonel Mendes, com quem iniciou uma parceria que perdurou por muitos anos. Leonel na época, não praticava alpinismo com freqüência, mas tinha sólidos conhecimentos de tudo que se passava no montanhismo europeu e americano, através de revistas e periódicos que recebia.Assim começou uma espécie de intercâmbio de informações onde Leonel entrava com os conhecimentos técnicos e Bito com conhecimentos práticos. A dupla tinha uns lances pitorescos, pois quando iam a montanha, invariavelmente um vestia uma camiseta verde, e outro uma camiseta amarela, o que naturalmente provocara risos e gozações por parte dos colegas. Engraçada ou não, a dobradinha verde-amarela era incansável, e entre outras escaladas fizeram todas as fendas da Esfinge, a Oeste em todas as suas formas e todas as escaladas do Parque do Lineu, também foram escaladas por Bito em solo.A dupla, além de esforçada tinha grandes ideais, pois almejavam atualizar o montanhismo paranaense, colocando-o entre um dos melhores do mundo. Mas esta pretensão, era no sentido de não se submeterem. Bito em muitas ocasiões chegou a passar a imagem de arrogante, por suas posições neste sentido.Esta vontade ferrenha de evoluir e melhorar, levou Bito a pensar na criação de um clube onde aficcionados do esporte, pudessem conversar, trocar idéias e se atualizar. Bito recorda que era frustrante ver os jovens da década passada irem para o Marumbi, passarem seu tempo entre "bebedeiras e mulheradas" enquanto os veteranos dedicavam-se as suas caminhadas, que tampouco interessavam aos jovens. É verdade, que este problema existe hoje em dia, mas com uma diferença fundamental, que entre as "mulheres e bebedeiras" existe um bom grupo de jovens interessados e que praticam alpinismo.O Clube Paranaense de Montanhismo nasceu de uma brincadeira de crianças, um sonho, que aos poucos foi ganhando contornos de realidade. O Clube, passou alguns anos sem ter existência jurídica (estatutos registrados, atas, etc...) mas tinha existência física. Deu-se o nome, criou-se o distintivo, que aliás, foi extraído de um Clube de Montanha do Canadá. Para que o distintivo não fosse exemplo de um plágio gritante, providenciou-se algumas mudanças trocando-se a neve que existe no original por nuvem, e o pinheiro canadense por uma regionalíssima araucária. Bito acha que o Clube atualmente, atingiu uma proporção difícil de acompanhar, talvez por estar afastado algum tempo do Clube pois mora em outro Estado. Mas, apesar de não poder sentir toda a realidade em torno do CPM, acha que o Clube está bem assessorado, e tem bons amigos, como a ADEA, ITC, SUREHMA, SECRETARIA DO INTERIOR entre outros, e isto é muito promissor.Quanto aos sócios, sentiu que a gurizada (que me desculpem) está muito devagar. Falta pique pra moçada. Outro problema é a desunião, formação de alguma "panelinha", autoridade no sentido de ter que esperar uma ordem para aprender, quando a pedra está ali, bastando apenas ir a ela. O pessoal confunde alpinismo com "boulder", que não passa de uma brincadeira para passar o tempo. Quem sobe o meio fio de uma calçada, ou tropeça numa pedra está fazendo "boulder". Que não fiquem perdendo tempo, medindo quem tem melhor técnica pois de nada adianta saber fazer um 10º grau Sup. Se não consegue transcender o menor amor por aquilo que está fazendo.Bito, sempre soube se relacionar muito bem com os jovens, por isso, ao término desta entrevista, solicitamos, que transmitisse um pouco de sua experiência a nova geração de montanhistas, através de algumas palavras. Finalizou esclarecendo que a base de seu entendimento com os jovens, sempre foi o respeito recíproco, e não ficar "podando" os meninos, cada vez que tentam externar sua vontade, não o seguissem, e tampouco copiassem outros alpinistas. Usem de toda a sua espontaneidade e liberdade para criar. E acrescenta, que não coloquem ninguém em pedestais distantes demais, pois a distância acaba impedindo de ver, do que esta pessoa é feita.
Só se aprende a escalar indo a pedra, de outra maneira a coisa não acontece. Ir a um Clube não basta, mesmo porque um Clube somente será de montanha, à medida que seus sócios freqüentarem a montanha. Vençam suas próprias limitações, quebrem seus próprios recordes, lembrando que só vai ser alpinista, quem estiver na pedra. Quando descer, enrolar a corda, a coisa transforma-se em papo e marola. Stamm* já dizia, quem quer escalar "pega a mochila e se manda". Atualmente Bito Meyer reside em São Paulo e mantém junto com Karina Filgueiras o site especializado em escalada Brasil Vertical.
Pedra do Baú conquista da via Cães e Caravanas em 2008

Cães e Caravanas (6º VIIb (A1+/VIIIb) E3
Transporte
Começamos o transporte de água algumas semanas antes e durante este período tivemos a ajuda de vários amigos e carregadores, cada um levava um pouco do equipamento e assim conseguimos botar tudo no platô. Era impressionante ver o Bito com suas bengalas canadenses (que tem que usar para caminhar em trilhas depois da fratura na perna que sofreu anos atrás e que causou o enrijecimento da articulação do joelho), carregando uma mochila cargueira com 20 quilos. Só mesmo tendo o “espírito do montanhismo dentro de si”. Com todo o material no platô, nos restava partir para a via. Desde o início nos propomos a ir trabalhando juntos e dividiríamos todas as responsabilidades da conquista, inclusive guiar, o Bito guiaria uma enfiada e eu outra, mas eu estava tranqüila, afinal tinha o “mestre” Bito Meyer do meu lado. Esta era a via mais séria que iria encarar, até agora tinha conquistado vias curtas e apesar de eu estar acostumada às grandes paredes, como de Yosemite, quase tudo que eu havia escalado até agora, foram repetições de vias, ou seja, eu tinha como referencia que 'alguém' passara por ali, mas agora eu me moveria por caminhos “virgens”.
Entrando no desconhecido
Escolhemos iniciar a conquista desde o platô do “MSP”, por uma fissura desafiadora, que ganho como presente e saio para o desconhecido, guiando por um terreno sem chapeletas com a responsabilidade de “criar Montanhismo”.A fissura é toda com boas colocações para proteções móveis (peças removíveis que colocamos na rocha). No início é relativamente fácil fazer as colocações das proteções, porém a fenda é formada por uma laca fina, e eu suspeitava que ela poderia quebrar com qualquer queda e no meio do desconhecido. Sem saber exatamente o que você vai encontrar e como seria o próximo passo, o meu coração dispara e tenho que trabalhar muito bem a cabeça para o pânico não “bater”. Depois de alguns minutos volta a concentração e eu consigo focar minhas energias e arrisquei-me na parede acima. Bato apenas duas chapeletas (proteção fixa) nesta cordada e chego a um platô, perfeito para uma parada.A primeira metade da via foi aberta com martelos e talhadeiras e a segunda parte foi com uma furadeira à bateria, o que tornou, em partes, o trabalho de grampear mais “fácil”. Mas para eu poder usar a furadeira e até mesmo me sentir a vontade e merecedora deste conforto tecnológico e conquistar esta via com o Bito, tive que bater (na mão) 8 furos numa tarde (aí nasceu a Tapa na Pantera, outra via que abri junto com o Bito em um outra região em que estamos abrindo um novo Campo Escola).O Bito entra para conquistar a próxima cordada, e de cima já aviso, “ta ficando linda”. Agora, mais uma fissura para peças pequenas, e sai em natural e assim foi, fomos revezando a cada cordada. A via tinha a característica das grandes vias de parede e estávamos preparados para tudo. Pensávamos que iríamos encontrar uma parede bastante trabalhosa, com trechos longos em escalada artificial, mas a cada cordada encontrávamos uma linha em livre, que nos levava a fazer um trabalho de escalada esportiva, forte, intensa e comprometida, e era muito bom saber que a via estava saindo em “natural”.
Conceito
Com o fato da via sair em natural, decidimos conquistar a via com um conceito bastante moderno e arrojado, pois a via tem graduação alta e as quedas acontecerão, porém são relativamente seguras para quem for repetí-la. Relativamente segura porque não grampeamos (não colocamos proteção fixa) onde era possível usar proteção móvel, o que aumenta o grau de comprometimento.Decidimos também fazer enfiadas curtas, pois a escalada ia mudando de forma a cada 20/30m, como se fosse separada por setores, e cada trecho é diferente do outro. Todas as paradas (local onde ocorre o fracionamento da escalada) estão muito bem protegidas, algumas com três chapeletas.Quando você leva uma queda, um vôo, numa falésia (parede pequena de rocha), já é adrenante, imaginem só isso acontecendo numa parede de aproximadamente 350m de altura, aérea e exposta. A via ficou maravilhosa e causou muita curiosidade e excitação na cidade e na galera escaladora, que acompanhou a nossa escalada dia-a-dia e viam nossas luzes de lanterna parede acima durante as noites. Fendas, faces verticais, regletes, negativos, teto, tinha de tudo e a cada metro que passávamos, o Bito me dizia “a escalada acontece de 2 em 2 metros, vamos em frente e com calma”. E eu ia desfrutando desses momentos...Seguindo as agarras chegamos à última cordada da via. Dali o Bito guia uma transversal de aproximadamente 20m, sem proteção em meio a pedra podre a qual chamou de “Benvindo a Ixtlan” (grau sugerido Vsup E3 E4 - grau de exposição a confirmar), chegando embaixo de um teto gigante, coberto de um líquen amarelado e de minério que reluz com a luz do sol.Teto - Bito equipa (coloca proteções fixas) o teto em A0, para que as pessoas possam repetí-lo, já que a via é toda em natural, e depois eu começo a conquistar os últimos 20m. Depois de muito esforço e duas quedas, consigo sair de “Ixtlan” pelo “caminho do Nagual” e chego ao cume do Baú. O Bito tinha razão, também aconteceu comigo... já não sou a mesma pessoa...
Logística e PlanejamentoPara esta investida estávamos programando de cinco a sete dias de parede. Como éramos apenas em dois, o trabalho pesado era intenso, além da escalada propriamente dita.O pior e mais desgastante era fixar cordas, jumarear (ascender pelas cordas), limpar a via (retirando as proteções colocadas pelo guia), passar horas na mesma posição fazendo a segurança do seu companheiro, içar os equipamentos, fotografar, fazer comida, economizar água limpando as coisas, ficar atento às condições climáticas, derreter embaixo do sol e depois congelar no início e no final do dia, enfim... nem tudo era brincadeira e esporte, uma trabalheira enorme, que terminava normalmente às 20h, dentro de nossos sacos de dormir. No dia seguinte acordar cedo, com as mãos já inchadas, cortadas e doloridas, começar tudo de novo, um trabalho difícil, cansativo, comprometedor e lógico arriscado.Tentávamos tomar um bom café da manhã, mas nem sempre era possível. A tensão do dia que viria pela frente e a sensação de descoberta e do desconhecido que estava na nossa frente, nos deixavam com uma certa “inapetência matinal”.Preparava um lanche, guardava na mochila e começava o dia ascendendo pelas cordas, interminavelmente, com enormes mochilas nas costas tantas vezes, que chegava a esquecer da altura.
O balanço
Depois desta conquista, aprendi muito sobre escalada e conheci também um novo lado do Montanhismo: a sua expressão mais pura e anárquica. Apesar de estar acostumada a escalada de grandes paredes e de já ter escalado vários big walls, permanecendo até cinco dias na parede e em várias regiões do mundo, cheguei a conclusão que a magnitude da conquista de uma via como esta é inigualável.O Comprometimento, o Companheirismo, a Cumplicidade e o Entendimento do Universo que rege essa harmonia entre os três elementos de uma escalada, que são, Você, seu Companheiro de cordada e a Parede, esses momentos são únicos e ao mesmo tempo inexplicáveis. Você se expõe de todas as formas e arrisca sua vida na ponta da corda e passa a conhecer de onde vem a força desses homens e mulheres, “originais e verdadeiros” que enchem nossos corações e espíritos com histórias de montanhas cheias de determinação, comprometimento e paixão.Concordo com o Bito quando ele diz que a conquista ou abertura de uma via como esta é um trabalho autoral, intelectual e que reflete muito do seu íntimo, e porque não dizer que é uma expressão artística do seu universo e da sua capacidade de criar e ser original.
Um pouco dos números
Não sei exatamente quanto utilizamos para realizar esta via, mas aqui vão alguns números:
Equipamentos: · 5 cordas de 60m (2 dinâmicas, 2 estáticas e 1 retinida)· 50 mosquetões soltos· 20 mosquetões de rosca· 20 costuras longas· 1 jogo de Camalots e Nuts (peças móveis para proteção - total 20pçs)· 6 ganchos (cliffs)· 15 fitas diversas· 56 chapeletas com chumbadores, batedores e martelo, brocas, furadeira· 2 mochilas de ataque· 1 mochila cargueira· 1 haul bag (saco de lona plastificada super resistente).Equipamentos de acampamento:· sacos de dormir· sacos de bivaque· isolantes térmicos· fogareiro· utensílios de cozinha· head lamps· primeiros socorros.· Além de tudo isso ainda há a alimentação de todos estes dias, carregadores e combustível do veículo nas diversas viagens de São Paulo à Pedra do Baú.
Classificação da Via
Nome: Cães e Caravanas
Conquistadores: Karina Filgueiras (40) e Bito Meyer (51)
Graduação Sugerida: 6º VIIb (A1+/VIIIb) E3
Descida: pelas escadinhas a partir do cume. Os rapéis da via são possíveis de qualquer trecho com duas cordas de 60m. A partir da P6 o rapel fica trabalhoso e com grandes pêndulos (não recomendamos para quem não estiver habituado a este tipo de situação).
Distância de Trilha: aproximadamente 1 hora com carga.
Download do CROQUI: http://www.brasilvertical.com.br/antigo/index.html
Matéria PublicadaPortal Webventure em 22/07/2008http://www.webventure.com.br/vela/conteudo/noticias/index/id/23107?pag=1
Outras Publicações
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quinta-feira, 30 de julho de 2009
Eu, a via Leste e as Sete Borboletas 20 anos depois

Para fazer uma via em solo são necessários alguns requisitos que estão além da força, da competição e da vaidade. É necessário, comunhão, religiosidade ou espiritualidade e desprendimento, entre outras coisas, mas é possível também, fazer só com sangue frio, assim como os heróis, como Stalone e o Cruiser, a diferença esta na hora em que dá “merda”, ou na hora que a última queda acontece: Quem esta caindo? Um montanhista ou um herói.
Uma das principais armas para um solo, é que você acredita ter a capacidade de resolver todos os problemas que a via impõe. De manter sua atenção ativa e também ver os perigos objetivos e subjetivos, antes que eles te abocanhem, cabendo a você, desistir da escalada ou resolver a “parada” a sua frente. O resto é respiração, atitude e movimento.
Mais que nunca, você deve estar só, ciente de suas intenções, capacidade e responsabilidades e não no meio de uma turma, deixando a todos preocupados com a situação e com a responsabilidade de ter que resgatá-lo, se der tempo, ou ficar com uma cena horrorosa para sempre em suas cabeças e ainda por cima ter que fazer a faxina. Ate então só sei de duas pessoas que a solaram, algumas vezes e inclusive outras vias nos 3 Picos e é possível que alguém mais já a tenha solado. Hoje em dia creio que os escaladores modernos sobem essa via correndo de costas, com os olhos vendados e de chinela ou a sobem de bicicleta e a descem de skate, mas realmente, não sei o histórico de suas repetições.
Minha experiência com essas montanhas fora deveras emocionante. Vinte anos atrás, tinha ido ao Rio de Janeiro com a idéia de solar a Via Leste (historia que conto na trilogia que pretendo publicar no final de 2008) e acabei solando-a na companhia de Sergio Tartari e Alexandre Portela , em menos de 2 horas. Passados alguns dias, Ale e Eu solamos a via Fata Morgana, no Capacete, apenas alguns dias depois desta a via ter sido conquistada. Na mesma temporada escalei com Ale e Sergio, encordados , a via Arco da Velha e o resto dos dias ficamos fazendo boulders. Depois disso, nunca mais havia voltado aos 3 Picos.
Vinte anos depois a hora de voltar acontecera. Retorno aos 3 picos, acompanhado de minha companheira de cordada, Karina Filgueiras, com a idéia de mandarmos a Leste o mais rápido que pudéssemos. Durante a viagem eu pensava na possibilidade de solar novamente, mas muita coisa tinha se tornado mais uma historia em minha cabeça do que realidade e as recordações que eu tinha desta experiência eram mais lembranças do que referência.Eu estava curioso se eu teria ainda os elementos necessários para escalar essa via em solo, depois deste tempo todo, logo Eu, tantas vezes enterrado por uma galera meia boca e apressados na fama. Mandamos a via muito rápido, Karina guiou a escalada toda, voou pela parede e apesar de termos errado uma parte da via, o que nos custou um bom tempo para consertar, conseguimos completá-la em menos de 4hs.Pronto! A idéia de solar começara a tomar proporções de realidade. Algumas semanas depois retorno a Salinas, com a idéia de fazer uma investida para reconhecer uma parte da via, que para min era como um buraco negro, nas minhas lembranças e mesmo tendo feito a via recentemente, existia um trecho apagado na minha mente e eu tinha que resolver issoantes entrar na parede. Recentemente havia comprado um tênis(sapatilha) da mad rock com a sola ultraaderente e na primeira usada, o tênis rasgou.Escrevo para a Mad Rock e explico o caso. Eles me respondem, pedindo desculpas pelo que aconteceu com o produto deles (se preocupam inclusive em saber se nada de mal tinha acontecido comigo e para me ressarcir), pedem para que eu escolha o tênis(sapatilha) que quiser. Faço minha escolha e algumas semanas depois chega em casa, sem despesas e sem “encheção de saco”, sem contestar o uso, um tênis(sapatilha) e sem ter que devolver o rasgado, que o conserto e vou com ele vou para os 3 Picos, pois já estava amaciado e o solado FX da Mac Rock,tem uma boa aderência.Subo ate a primeira chaminé, escalo e desescalo o trecho que eu tinha curiosidade e fico em dúvida por onde continuar pois, quando fiz com a Karina, passamos tão rápido que eu não lembrava por onde era a Via. Faço uma tentativa e erro o caminho, me meto numa merda sem tamanho e fico alguns minutos decifrando como descer dali e não faltando elementos para compor esta situação, meu tênis descola. (o remendo que eu fizera com cola vagabunda se desfaz) tornando o uso do tênis impraticável e meu solo ficaria para outra situação. Enfim, desço com segurança, com os dedos do pé fora do tenis.Agora mais que nunca a idéia estava formada, era hora de solar a Leste doPico Maior, vinte anos depois. Calma! É uma via fácil; com 800m, duas chaminés do tamanho de um prédio, que para fazer com minha nova configuração de movimentos, já que depois de meu acidente, perdi a mobilidade do joelho direito, tenho inventado uma nova safra de movimentos que docemente me ajudam a escalar. Confesso que para fazer a triangulação com as pernas dentro de chaminés é uma barra, pois além de ter que fazer uma força a mais , tenho que ser técnico, criativo, saber o que eu estou fazendo e mais que nunca ter confiança na sola e no shape de meu tênis de escalada. É fundamental; eu tenho vários tênis de escaladas e de varias marcas e de diferentes solas, mas escolho, para esta escalada, um tênis nada conhecido, fabricado no leste europeu, sem nome famoso e muito barato, pois sou muito exigente com a qualidade de meus calçados de escalada, este tênis havia me surpreendido e depositava minha total confiança nele, pois era preciso, confortável e aderente, não soltava as tiras e o chulé não sai.Novamente, algumas semanas depois, volto a os 3 Picos, com a pior previsão do tempo possível(já é novembro), chuvas , mais chuvas , muitas trovoadas, ventos, pressões e frentes frias. Mesmo assim fui para a base avançada que é o Refúgio Republica 3 Picos do Mascarim e lá fiquei 3 dias tomando café e olhando o tempo e seu comportamento. Todos os dias foram de vento, chuvas em algum período, do dia ou da noite; só me restara apostar noúltimo dia que teria disponível para esta tentativa. Dia este, em que meus 15 dias de pesquisa sobre o tempo, era para ser um dia ruim, mas algo me dizia que era para eu apostar na possibilidade de ao menos não chover enquanto escalava. Chuva na descida não seria problema. Na madrugada quando despertei para a escalada e abri a porta da barraca, vi que o dia começava a nascer como um verdadeiro dia de montanha ,em preto e branco, tudo fechado, a montanha estava coberta de nuvens e os ventos fortes, as fazia dançar como ninfas, como bailarinas, rodando ao redor da imensa paredes como se lambessem e se esfregassem nas paredes como dançarinas dos filmes do Tarantino, sedentas de sangue e sexo selvagem e eu sabia a proporção pequena que o corpo de uma pessoa ocupava naquela parede e a cena era assustadora. Imaginar uma pessoa agarrada na parede com aquelas criaturas rodando ao seu redor agarradas e dependuradas nela, esperando que ela caia e espalhe carne, vísceras e melecas, parede abaixo, deixando para os amigos o serviço de faxina. Cheguei a ouvir as gargalhadas delas, chamando-me para cima, com movimentos de mão e com um sorriso libidinoso nas suas caras de vampirela. A cena era horrível senti um arrepio na espinha que gelou a alma, voltei a dormir; 2 minutos depois desperta o relógio, eram quase 5 horas e os primeiros embaixadores da luz, já começam a chegar e o dia despertava; a parede estava coberta de nuvens e um forte vento, hora mostrava a parede e hora, a escondia. Tomo meu café, pego minhas bengalas e minha mochila e começo a caminhar, sem pressa, como se dando ao tempo, o direito de piorar. Subo até a base da Leste sem olhar para cima, deixando esse espetáculo para quando estivesse bem embaixo dela, para ver se o tamanho da parede me assustaria e então, eu pegaria minhas coisas e desceria, tomar mais café e praticar montanhismo verbal. Mas ao olhar para cima, uma parede bela e fantástica, se erguia na minha frente e as nuvens agora a adornavam, tornando-a mais sedutora e o fato de não ter mais mingúem na montanha dava um ar de intimidade, de cumplicidade e era muito sedutor. Fico 1 hora namorando a parede e esperando que a chuva caia, escuto umas trovoadas distantes e a espera causa ansiedade e então, começo a subir.Levo na mochila uma corda de 40 m para descer, 3 mosquetões, água, lanches e diversões. Subo com a idéia de chegar até a primeira chaminé e esperar pelo tempo, que continuava a me assustar, mas a parede estava seca. Subo com as nuvens brincando ao meu redor e o vento inflando minhas calças e gelando meus testículos, só para ver como eu reagia. Para chegar na base da primeira chaminé, encontro a parede molhada e escalo este trecho com muito cuidado e em 1h estou na base dela. Ela me impressiona, era como se fosse uma gigante escultura e eu não via a hora de tocá-la. Mas, espero mais de 1 h embaixo da chaminé, deitado num pequeno platô, esperando pela chuva, não faz frio, faço um lanche e no meio daquela ventania consigo enrolar um cigarro e fumo com parcimônia. Aposto que a chuva não vem e então levanto para voltar a escalar mas, ao levantar, me dá um “branco”, minha cabeça gira, minha visão some , depois me dá um “preto”, minha cabeça balança e minha visão continua apagada e milhares de bolinhas prateadas dançam na minha frente, lentamente volto ao “normal”. “Pô maior barato! Ai!”.Começo a subir, essa chaminé orna comigo é cheia de agarras e é possível subir rápido, faço a saída da chaminé, que e´ “muitolouca” uma saída levemente negativa com uma passarela de pés bordejando o vazio, alucinante... Chego ao platô, reboco a mochila e olho para cima procurando pela passagem que eu procurava. Eu tinha, obtido com a galera alguns betas, mas eu não lembrava aonde eu entraria para esquerda e nem como era a seqüência de agarras, eu teria que achar a passagem de primeira, para não perder tempo e para a chuva não me pegar neste trecho. Começo a subir e logo encontro a tal passagem, mais abaixo de onde antes eu havia me metido numa roubada. A parede é em pé e os movimentos são lindos e embaixo de você 600m de parede e vazio assistem seus movimentos e eu, que de tão absorto, tinha até odireito de me divertir e brincar com o vazio.Chego no final da parede que me separa da segunda chaminé e uma metáfora me esperava como um sorriso malicioso e percebo o quebra cabeça em que estava metido....Na altura de meu peito algumas agarras sem definição e difíceis de segurar mas boas de pisar e bem acima de minha cabeça umas agarras que pareciam boas e definidas, mas eu não conseguia alcançá-las, para isso eu teria que subir o pé direito alto até as agarras do meu peito e depois de meu acidente, isto é impossível. Então tenho que fazer o movimento com o pé esquerdo e a única maneira de fazer esse movimento, era usar uma agarra trincada e difícil de segurar; levo uns 10 min tentando outra maneira de passar o lance, sem usar a tal agarra, mas não há outra maneira , invoco o poder das sete borboletas que tenho tatuadas em minhas costas e utilizo a agarra, içando-me pelo cordão prateado que une o espírito ao corpo, levito e o vento me coloca suavemente nas agarras , que de tão bom tamanho...me senti em casa.Bom... A cena não foi bem assim... Mas foi parecida!Chego embaixo da segunda chaminé, observá-la de baixo é assustador, seu tamanho, sua estranheza e suas paredes lisas, com as nuvens entrando e saindo dela e minha última experiência com ela, era desanimadora; o tempo agora estava mais cinza que nunca e as trovoadas estavam mais perto, não poderia perder tempo. Abandono à mochila na base e deixo-a preparada para ser rebocada, agora era “só” mandar a chaminé, o primeiro artificial, passar o segundo artificial e pronto, o cume. Entro na chaminé e como tenho dificuldade em fazer a triangulação na parte mais larga, vou para o fundo dela, para fazê-la em off width. Apesar de ser uma técnica mais difícil ainda era mais fácil e seguro para mim,que em técnica de chaminé media.Os últimos metros são terríveis, o vazio embaixo de mim me chamando e a lógica me dizendo que era impossível descer; chego no final dela, vazando aqui e ali, com cara de quem tomou uma surra; me recomponho rapidamente, pois na minha frente estavam as chapeletas originais da conquista, com 33 anos e que até hoje são usadas para cruzar em artificial aquele trecho da escalada; com duas solteiras começo a me puxar naquelas chapeletas feitas de lata de óleo e com seus parafusos um pouco mais grossos que um palito de fósforo , mas como diz o “cara’: se não arrebentou com o último, não vai ser comigo e levitativamente chego ao platô; dou um tempo pra cabeça e ao corpo, me hidratando e enrolo mais um cigarro e fico uns 30min, descansando e olhando o espetáculo das nuvens. O cume estava atrás de mim, podia esperar. As nuvens dão um tempo e escuto um grito vindo do Mascarin e respondo com a mesma intensidade, pois era um grito de apoio, um “grito amigo”.Fico ali olhando o vazio, as distâncias e lógico a dança das nuvens, mas começa a chuviscar e saio do transe rapidinho, se a chuva molhar o trecho, que ainda resta, terei muito trabalho para chegar ao cume e saio com muita pressa para cruzar o pequeno trecho de artificial que é composto de 4 ou 5 chapeletas tão velhas como as outras. O lance não é difícil, talvez um 5+, mas naquela altura do campeonato eu me dependurei nelas e sai dali rápido em direção ao cume. Levo a corda comigo para deixá-la marcando o caminho de volta, vou colocar meu nome no livro de cume e ver quem eram os últimos a assinar e que por sinal, eram duas feras de Friburgo que estavam também no Mascarim. Não tinha caneta para assinar o livro, então assino com um pedaço de carvão: Bito Meyer, Leste em solo, dia 19/11/07.Depois de passar a euforia de que “só o cume interessa”, lembro que o cume é a metade da escalada, agora teria que descer e os urubus que estão no cume olham com indiferença o meu pouco cadáver e eu os olho com inveja, pois teria que descer uns 800m com uma corda de 40m.Desescalo ate o platô abaixo do último artificial, escuto mais gritos. Monto minha descida naquele grampo de 33 anos de idade e vou até o começo da chaminé, deixo um mosquetão no primeiro grampo Stubai para não fazer um pendulo gigantesco e começo minha descida. Desço em “Z”, um sistema que uso para descer sozinho de grandes paredes e que apesar de em uma etapa de sua montagem ser bastante perigoso, é muito rápido e posso descer constantemente sem ter que parar para montar o rapel tradicional, a cada final de corda.Durante a descida volto a escutar vozes e percebo que tem alguém na Sol Celeste e consigo vê-los descendo em meio as nuvens. Chego ao final da parede e toco novamente o chão, recolho meu equipo e minha insignificância com muito respeito e gratidão, com o coração imenso pela oportunidade de me relacionar com a montanha da minha maneira e de ela tersido tão benevolente comigo. Termino meu ritual particular e já não sou mais a mesma pessoa.Foram 3hs de escalada, 3hs de espera e 1h e meia de descida, descida rápida para uma corda de 40m. Descobri também que num dia tranqüilo da para mandá-la mais rápido. Começo a descer imaginando uma caneca cheia de café quente e tirada na hora. Durante a caminhada de descida a rapaziada me alcança, nos cumprimentamos e paramos para comemorar, a nossa maneira, as escaladas que tínhamos feito e admirar o local onde nos encontrávamos. Ainda tinha uma caminhada até o Mascarin a ser feita. A galera sai na frente com a missão de colocar a água para esquentar, enquanto isso, eu vou descendo comminhas bengalas, satisfeito da vida. Chego ao Mascarin e sou recebido com o calor da galera, a água já estava borbulhando, agora era só fazer café e desfrutá-lo, olhar aquela bela parede, reverenciar minhas bengalas e aquela oportunidade única. Um homem de 50 anos, que nos últimos 40 anos, não faz outra coisa a não ser caminhar os caminhos traçados por um coração, simples, tranqüilo e valente.... Bem... tem horas que eu “amarelo” legal! Ai!Dedicado com carinho, a Arte, ao Sopro e as minhas sete Borboletas.
A Conquista da Face Sul da Pedra Riscada

Agora eu poderia sonhar com uma nova escalada!Espero o Eijii subir, comemoramos, pois tanto para ele como para mim, aquele momento tinha cobrado de nós muito esforço, mas havíamos tido tanto em troca, que a única coisa que não nos lembrávamos era do esforço que nos custara a chegar ali.Tentamos ir até a parte mais alta, mas como não tinha trilha tentamos abrir uma, o chão era fofo e difícil caminhar, afundávamos na vegetação, propriamente dita, não conseguíamos ver mais e teríamos que usar nossas últimas pilhas e estávamos esgotados e famintos, queríamos comer, dormir e até tomar banho e escurecia muito rápido, nosso ânimo e nossa energia tinham sumido, o dia tinha acabado. Desistimos e começamos a baixar, chegamos ao nosso ex-platô e decidimos descer a noite. Chegamos ao Platô Invisível, comemos e assim que eu deitei, durmo imediatamente, tudo o que tinha de direito; acordamos tarde e eu, mais cansado ainda . Não tínhamos mais café, nem comida e o recurso era descer rápido, pois só pensávamos na comida da pensão, em banho, coca cola, cerveja e em todo tipo de pecados. As mochilas estavam pesadas como sempre e os rapéis eram intermináveis e demorados; a corda era pesada para puxar e eu já não fazia mais nada, ficava esperando o Eiji fazer esse trabalho e ao meio dia, tocamos o chão.Metro a metro tinha escalado uma das minhas mais difíceis vias, tínhamos conquistado a Face Sul da Pedra Riscada, uma via maravilhosa e que me gratificava com cada metro de rocha escalada. A “Cria Cuervos”, não é dessas vias que vale “a pena” repetir; se você tem consciência do risco envolvido, é melhor abrir outra via. Se fosse classificar a via, para fornecer uma referência em números, eu diria que ela é uma via de 7º E5 D6.A cada metro escalado estava perto de um grande acidente e tinha que jogar com toda a experiência adquirida nestes 40 anos de montanhismo e escalada. Nem na Patagônia, El Capitan, Bolívia e etc... eu estive tão perto de um acidente ou para ser sincero, perto da morte, mas foram os momentos mais intensos que tive na minha vida de Montanhista e como estive nesta via e tudo pelo fato de não querer encher a via de grampos, de não carregar minha coragem, nem meu conhecimento na mochila.Eu escalo, simplesmente jogo o jogo, e não como se fosse uma penitência, mas sim, como uma dádiva