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quinta-feira, 30 de julho de 2009

A Conquista da Face Sul da Pedra Riscada


A CONQUISTA DA FACE SUL DA PEDRA RISCADA — Por Bito Meyer - no 2006




Foi em 2001 que conheci a Pedra Riscada, voltando de Lajedão, uma cidadezinha na divisa dos estados de Minas e Bahia, onde se encontra a Pedra do Fritz com seus paredões de granito de aproximadamente 600m e de onde retornávamos depois de abrirmos a via “Welcome to Tihuana” (A2+ E3 D5 grau sugerido) , uma via que abri com Edemilson Padilha, proprietário da “Conquista”, onde eu trabalhava a uns 6 meses. Após um período de treinamento que fizemos juntos, partimos para nossa empreitada. Essa viagem em particular seria bem significante, pois eu voltaria a escalar após um ano parado devido a uma cirurgia que tinha feito e conheceria a Pedra Riscada e para o Edemilson, a via “Welcome to Tihuana” seria a sua segunda abertura de via em grandes paredes; mas acabamos subindo só uns 150m de via pois o final era em pedra podre e teríamos que subir furando para progredir em cliffs; preferimos descer.Na volta resolvemos ir até São José do Divino para conhecer a Pedra Riscada, o quinto maior monolito do planeta. A primeira visão que se tem dela é já na estrada que chega a São José do Divino, ela aparece imponente, parecendo uma poltrona gigante, tanto que as pessoas da cidade a chamam de Trono de Deus, ou coisa parecida.Até aquele momento existiam apenas algumas vias e a sua Face Sul estava intacta. Era um belo paredão que esperava alguém para subi-lo e esta era uma via que eu gostaria de fazer, pois tinha mais de 1000m de pedra a ser escalado, apesar da aparente ilusão de não ter mais de 400m. A idéia de subi-la a cada dia ia tomando forma em meus pensamentos. Conto ao Edemilson que trabalharia só mais algum tempo e que depois eu iria “atrás” da pedra. Esta seria a segunda vez que sairia de um emprego para subir montanhas, a primeira vez foi em 77, quando sai de um trampo que tinha em um jornal em Curitiba para ir conhecer o Itatiaia e as montanhas do Rio de Janeiro.Com patrocínio da “Conquista” para esta investida, parto finalmente em direção a “Pedra”. Convido um aluno meu, o Giorgio Zofoli, para me acompanhar. Eu o havia instruído num curso básico de escalada em Campos do Jordão,SP e ele tinha tido um bom aproveitamento, era forte e determinado o suficiente para me ajudar na empreitada que esta Escalada prometia.Lotamos o carro e partimos rumo a “Pedra”, não tínhamos pressa, escolhemos as estradas secundárias para fazer uma viagem calma e sossegada, sem o terror das estradas principais. Chegamos no local que seria nossa base e montamos acampamento. A caminhada até a base era fácil e cheia de carrapatos e mosquitos, mas privilegiada, pois, caminhávamos em meio as últimas árvores que restavam na região e que não puderam ser cortadas devido ao terreno ser acidentado demais para poder baixá-las; só restaram alguns exemplares de árvores maravilhosas num raio de muitos quilômetros. Montamos nosso acampamento junto da parede, armamos nossas redes e ficamos desfrutando do lugar. A noite um forte vento e chuva nos deram boas vindas! Pela manhã, o sol nos dava coragem!Eu teria que guiar todos os largos e o Giorgio me daria segurança e ajudaria com o içamento das mochilas. Consegui abrir 3 largos, mas ao descer para base, no final do dia, observei um itinerário melhor para subir e ao retornarmos no outro dia entrei neste novo itinerário e ficou mais rápido, mas tive que escalar 3 novos largos. A parede era composta de varias agarras, mas tinha um porém, 30% das agarras quebravam a todo o momento, ou era uma agarra de mão ou de pé, criando uma onda de adrenalina constante, eu tinha que escalar atento e volátil. Subia largos inteiros sem parar para colocar grampos e somente montava a parada para meu companheiro subir e rebocar os equipamentos. Chegamos ao Platô do Bonsai e montamos nosso acampamento de parede e nesta primeira noite uma chuva tentou literalmente nos arrancar do nosso lar provisório. Pra nossa sorte o sol saiu pela manhã e em algumas horas estávamos prontos e secos para escalar novamente. O lance a seguir era mais inclinado e se podia ver que era de muita “responsa” (um solo de 6ºgrau de 30m à vista, sem a referência de que alguém já tinha feito e com uma queda de 60m, acertando um platô de brinde!). Subo sem mochila para ter mais liberdade de movimentos e em poucos minutos estava “em cima” da moita que serviria de platô (acabo solando esta cordada por mais de 10 vezes, até ser possível chegar ao cume!). Bato os grampos da parada, meu companheiro sobe para me dar segurança para o próximo lance e com uma corda estática de 100m e mais um pedaço emendado, escalo um largo de 120m sem colocar proteção. Chego a Banheira das Cabritas, o lugar é único, um mundo de granito, ali podíamos dormir, havia um pequeno espaço plano e tínhamos uma fartura de água amarela que chamávamos de “xixi de cabrita”. O costão a seguir, que imaginávamos deitado, agora se revelava ser bastante inclinado e para minha surpresa, tinha que escalar lances constantes de 4º grau ou mais, em aderência e com mochila nas costas, o trabalho era mais penoso que difícil.Conseguimos mandar aproximadamente 600m, até agora tinha sido possível escalar os largos sem precisar bater grampos entre as bases, mas agora a parede fica mais difícil. Depois de escolher o pilar por onde eu gostaria de subir, já que são tantos, começo a escalar, uma agarra de mão quebra e eu tomo um “amarelão”, o que me tira a concentração, um platô abaixo de mim ficava de boca aberta esperando um vacilo meu! Aquilo me tira a paz e nos próximos 20m coloco 3 chapas, a mais ou menos uns 6m uma da outra, aquilo me acalma e volto a escalar com tranqüilidade, sem a necessidade de se utilizar de força e os próximos 20m consigo “mandar em paz”, sem grampear, apesar do largo ter ficado exposto e difícil. Escalava com uma sapatilha 5.10, precisa, segura e confortável, e sua sola C4 é perfeita para escalada de responsabilidade.Tivemos que descer umas quatro vezes e ir ate a SJD, para secar roupas, descansar, comprar comida, tomar umas geladas e etc... Nos aproximamos dos primeiros caraguatás gigantes, era como se escalássemos em meio a uma multidão de estranhos indivíduos e a escalada agora era mais difícil, mesmo assim consigo escalar e colocar os grampos bastante distantes uns dos outros, em media 10m e algumas vezes até mais distantes, era muita parede e parar para colocar proteções demoraria ainda mais a escalada. Para a escalada render esticava os largos ao máximo e mesmo assim, a parede era muito grande e víamos isso quando esticávamos uma corda de 60 m e tínhamos a sensação de não termos saído do lugar. Percebemos, para a nossa frustração que não seria possível chegar ao cume desta vez e que nosso tempo acabara, meu companheiro, que tinha resistido com bravura e bom humor na sua primeira experiência em montanha, agora tinha que voltar para casa e cuidar da vida. Um pouco antes de terminar o último largo, coloco um rebite e resolvo descer, pois tínhamos que aproveitar o tempo que tínhamos de luz para chegar até as “Cabritas”. Ainda faltava muita rocha, era incrível saber que tinha rendido aproximadamente 700m de escalada e os primeiros 600m foram praticamente em solo, com grampos só nas paradas!Descer de uma via inacabada é um momento difícil e frustrante e a única coisa que nos conforta é saber que você voltará! Alguns meses depois, em 2002, voltei novamente com outra turma, para tentar outra rota, mas pela pouca experiência do grupo, usamos minha rota anterior para ganhar altura e a partir do Platô das Cabritas, saímos por uma rota à direita. A pedra cobrara cada metro escalado e meus companheiros acharam a tarefa muito difícil para eles e não estavam preparados para aquele tipo de escalada. Novamente nosso tempo acabou e tivemos que abandonar a escalada.Novamente, alguns meses depois, em 2003, após abrir algumas vias em Campos do Jordão, voltei uma terceira vez com amigos e desta vez a viagem foi mais dura conosco. Na primeira noite fomos atacados por “trocentos” carrapatos e eram tantos que tínhamos carrapatos por todo o corpo e quanto mais nos movíamos no denso capim que nos acompanha até a base, mais carrapatos grudavam em nós e a coceira e o desconforto era inevitável. Não sabia que carrapatos eram aqueles e se teríamos maior conseqüência, apesar do ânimo do pessoal, como eu era responsável pela equipe optei por descer do Platô Dorme Mal. Descemos para dar uma chance a coerência.Um ano depois, durante um curso de Montanhismo que eu ministrava, convidei um aluno, o Eiji Fujii para terminar seu curso na Pedra Riscada, seria um grande desafio pois poríamos aí “a prova” todos os ensinamentos, seria uma grande experiência para o Eiji, já que teríamos que colocar em prática tudo o que havia sido ensinado em seu curso, do bivak ao içamento de cargas, utilização de cliffs, grampeação, logística de parede e etc., e tentaríamos terminar a rota eu havia começado.Novamente enchemos o carro de tralhas e partimos para SJD. Mais uma vez solo aquela imensa parede, passo pelos mesmos lances que sabia que me levariam pra cima. Tivemos que fazer muitos transportes de equipamentos até a base e depois içá-los. Entre chuvas, carrapatos, mosquitos, sobe e desce e cervejas. Chegamos a três largos do final e novamente tivemos que descer, nosso tempo já era!Nesta temporada, solo por quatro vezes os mesmos lances até chegar no início do Pilar Central onde havíamos deixado nosso acampamento. Meu aluno, Eijii, tinha terminado seu curso, com o meu incentivo, apesar de muito medo e receio, acabou guiando, caindo, grampeando e vivenciando o melhor do Montanhismo e era muito bom estar ali com os carrapatos , tomar água amarela ,coçar o dia inteiro, ficar como macacos catando piolho e sendo comido por uma nuvem de mosquitos, mas eu não tinha terminado a via outra vez e a idéia de voltar já me deixava feliz.Duas semanas depois eu estava voltando acompanhado de duas feras do Montanhismo, Bruno Melo e Rafael Specian, guias e criadores de muitas vias na região da Pedra do Baú. Não tínhamos muito tempo, tínhamos só uma semana e eram poucos dias, mas valia a “trip”, ver a “Pedra” e estar na companhia destes escaladores para mim era um privilégio.Eu queria terminar a via da face sul, era uma linda formação de granito e seu tamanho era revelador, também pela oportunidade de poder abrir uma via, de praticar Montanhismo na sua essência e de percorrer passo a passo mil e tantos metros de um granito, hora liso, hora podre e sem nenhuma fissura. É difícil deixar uma via sem terminar ...Eu queria fazer esta via com amigos e com pessoas apaixonadas pelo que são e pelo que podem fazer, pessoas que tenham consciência da oportunidade de serem montanhistas. Não me interessava nesta altura do campeonato, fazer uma escalada profissional. Subir carregado de adesivos e etiquetas, de patrocínios duvidosos e de responsabilidades mal formuladas, era uma bela Montanha para trazê-la tão baixo.Lá estava Eu, novamente estava guiando aqueles largos insanos e inimagináveis. Como não tem grampo, você não tem uma “reta” para seguir, você faz o itinerário com os olhos, mas você pode sair de um quarto grau e facilmente entrar em lances de 7 grau ou entrar num setor de pedras podres ou lisas... diversão garantida.! Caberia a mim guiar aos ditos 600m iniciais, atento, com responsabilidade e longe de acidentes, pois não é isso que procuramos quando saímos de casa para escalar e cada um sabe de suas possibilidades e o quanto é honesto consigo próprio e como eu havia aberto os lances e sabia por onde eu tinha escalado, seria mais rápido. Esqueço meus tênis de escalada e subo com um tênis de cada marca, pois foi a maneira de encontrar conforto, já que calçava um tênis do Bruno e outro do Rafa e esses tênis sabiam o que fazer. Eu guiaria até a base do Pilar Central e nossa idéia era chegar lá, naquele dia.Guio ate o Platô Invisível, onde passamos a noite, enquanto procurava um lugar para fazer café os dois escalam aproximadamente mais uns 100m e fixam a corda para facilitar o dia seguinte . Neste platô, que não existe, se der sorte você acha os únicos centímetros aonde é possível uma só pessoa dormir, os outros terão que ter criatividade, mas no final todos dormem bem!Na manhã seguinte Bruno e Rafa passam a liderar e Eu vou com as mochilas, naquele dia os “mano” tiveram um dia de Samurai, decifrando o quebra-cabeças que levava até a próxima chapeleta e como guerreiros, subimos até aonde tínhamos parado na minha última tentativa. Chegar até ali tinha nos esgotado, pois subimos muito rápido, a via é muito tensa e obriga o escalador a subir sempre “blocado” e nossos dedos, antebraços e cérebro já sentiam o esforço feito até aquele momento.Passamos uma noite de cão! Bruno e Rafa espremidos contra a parede por suas redes e eu “cozido” por ter passado a noite sentado em um caraguatá. O frio, o vento e a neblina foram os adicionais da noite. Acordamos literalmente podres. O tempo tinha mudado e a parede acima nos dizia que nosso tempo era curto . Enfim já sabíamos disso. A escalada do Pilar Central é mais lenta, mais técnica e a rocha mais quebradiça. No nosso quarto dia de viagem estávamos cansados, tocamos somente 15m de via nova e por fim concordamos que nosso tempo era curto e resolvemos descer e curtir os dois dias que nos restavam na vila, olhando as morenas, entre uma cerveja e outra. Já estava acostumando com o fato de descer e voltar, já não era mais uma escalada, era sim uma relação, Homem e Montanha, eu estava feliz, estava praticando montanhismo. Sabia que mais uma viagem e com os dias certos eu terminaria a Via . Alegrava-me o fato de saber que mais uma vez voltaria a São Jose do Divino, encostar o cotovelo no balcão da mercearia do Zezinho (onde nóis é vip!) e ficar de prosa; era muito bom saber que era uma relação com a Montanha que nos possibilitava isso e era assim que seria, com muitas visitas; coisas do Montanhismo. Eiji teria novamente uns dias disponíveis, em agosto de 2006, e estava “afim de” voltar para tentar novamente. Em Maresias, enquanto espero os dias de sairmos, “abro” uma falésia que eu havia descoberto no primeiro dia que cheguei a Maresias e que havia utilizado para dar aula de conquista e grampeação para o Eiji onde abrimos uma primeira via e com corda de cima colocamos algumas chapas para uma futura via e para não ficar parado enquanto o Eiji estava ocupado administrando o hotel de sua família e se preparando para poder viajar, vou sozinho para a falésia e coloco umas 12 vias esportivas com graus para todos os gostos, todas abertas com talhadeiras manuais, para treinar e ficar preparado pois sabia o que me esperava se tratando de Pedra Riscada. O Eiji não guiaria, pois não tinha treinado para guiar uma via como aquela e não queria colocar mais grampo que o necessário e ele acabara de se formar e ainda teria que fortalecer seus conhecimentos e experiência de ponta de corda, não valia o risco; mas era muito bom contar com seu apoio e sua companhia.Partimos com o patrocínio do Hotel Côco Nuts, situado em Maresias bem no meio do agito dos bikinis e a “Falésia do Bito”(como já ficou conhecida) bem ao lado. Ao chegarmos no nosso velho local de parada, sabíamos que tínhamos um duro trabalho a ser feito. No outro dia escalamos até a base do Pilar Central e montamos nossos “porta ledge”, naquela noite choveu e como a pedra fica impossível de escalar descemos até SJD para descansar e se refazer do içamento dos equipamentos . Assim que o tempo melhorou voltamos a parede e novamente solo aqueles 400m e os últimos 120m escalo a noite sem lanterna; esgotados, dormimos ao lado da água, ao relento e sem saco de dormir e durante a noite precisamos de nossos cobertores térmicos! Chegamos aonde a via havia parado e escalo uns 15m, alcanço o tão desejado “Platô da Arvore”, que não era bem um platô, mas seria melhor dormir ali do que em outro lugar, pois ali era possível ficar em pé e cozinhar com mais tranqüilidade, escalo mais uns 15 m e desço para dormir. No dia seguinte consigo escalar uns 45 m, a via agora era lenta e a pedra era mais podre que nunca, mesmo assim estava predisposto a não parar para grampear e esticava a distância entre cada chapeleta o máximo que podia.Naquela noite desço completamente esgotado. Quando estou chegando no “quase” platô escutamos um estalo e logo após o platô cai e ficamos dependurados no escuro, tive que montar minha rede, que rasgou e tive que passar a noite sentado novamente em um caraguatá e o Eijii, que perdera uma vareta de sua rede passou a noite espremido contra parede. Nossa comida havia acabado e nossa água estava no fim, tínhamos uma só refeição. Passo a noite acordado, esperando a oportunidade que aquele dia me possibilitaria. Acordei moído, não tínhamos mais comida, somente algumas balas e proteína em barras que eram horríveis. Sem comer e sem café começo a escalar. Tínhamos que atingir o cume aquele dia, não tínhamos mais comida, nem água e nem mais tempo; era tudo ou nada e eu não conseguia saber quanto ainda faltava, pois o desenho da pedra não permitia que eu decifrasse o melhor caminho. Comecei a escalar e nos primeiros metros já eu estava exausto, a noite em claro cobrava seu preço.Subo sem fazer parada, faríamos isso depois, na descida. Passo o dia todo escalando.Apesar das chapeletas estarem em media a uns 10m de distância uma das outras e algumas até mais; tenho que colocar várias no dia; subimos aproximadamente 100m de parede e as 6h da tarde chego ao final da parede!Tento comemorar com uns gritos, mas não tinha força para gritar, estava muito feliz, olho ao meu redor e vejo o dia chegando ao fim, as cores do anoitecer já enchiam o céu, as poucas luzes da região já estavam acesas, escuto um grito vindo lá de baixo nos saudando; o dia morria morno e meu coração se enche de alegria e gratidão e respiro profundamente aquele momento!Uso minhas últimas forças para bater os 2 últimos grampos que coloco pra meu espanto, rápido!A via tinha chegado ao fim, depois de tantas tentativas, aquele momento tinha chego como deveria ser, quando se trata de montanhismo, da relação que os homens tem com as montanhas e quando se põe a “cara a tapas”.
Agora eu poderia sonhar com uma nova escalada!Espero o Eijii subir, comemoramos, pois tanto para ele como para mim, aquele momento tinha cobrado de nós muito esforço, mas havíamos tido tanto em troca, que a única coisa que não nos lembrávamos era do esforço que nos custara a chegar ali.Tentamos ir até a parte mais alta, mas como não tinha trilha tentamos abrir uma, o chão era fofo e difícil caminhar, afundávamos na vegetação, propriamente dita, não conseguíamos ver mais e teríamos que usar nossas últimas pilhas e estávamos esgotados e famintos, queríamos comer, dormir e até tomar banho e escurecia muito rápido, nosso ânimo e nossa energia tinham sumido, o dia tinha acabado. Desistimos e começamos a baixar, chegamos ao nosso ex-platô e decidimos descer a noite. Chegamos ao Platô Invisível, comemos e assim que eu deitei, durmo imediatamente, tudo o que tinha de direito; acordamos tarde e eu, mais cansado ainda . Não tínhamos mais café, nem comida e o recurso era descer rápido, pois só pensávamos na comida da pensão, em banho, coca cola, cerveja e em todo tipo de pecados. As mochilas estavam pesadas como sempre e os rapéis eram intermináveis e demorados; a corda era pesada para puxar e eu já não fazia mais nada, ficava esperando o Eiji fazer esse trabalho e ao meio dia, tocamos o chão.Metro a metro tinha escalado uma das minhas mais difíceis vias, tínhamos conquistado a Face Sul da Pedra Riscada, uma via maravilhosa e que me gratificava com cada metro de rocha escalada. A “Cria Cuervos”, não é dessas vias que vale “a pena” repetir; se você tem consciência do risco envolvido, é melhor abrir outra via. Se fosse classificar a via, para fornecer uma referência em números, eu diria que ela é uma via de 7º E5 D6.A cada metro escalado estava perto de um grande acidente e tinha que jogar com toda a experiência adquirida nestes 40 anos de montanhismo e escalada. Nem na Patagônia, El Capitan, Bolívia e etc... eu estive tão perto de um acidente ou para ser sincero, perto da morte, mas foram os momentos mais intensos que tive na minha vida de Montanhista e como estive nesta via e tudo pelo fato de não querer encher a via de grampos, de não carregar minha coragem, nem meu conhecimento na mochila.Eu escalo, simplesmente jogo o jogo, e não como se fosse uma penitência, mas sim, como uma dádiva

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Rudolf Stam, Uma via e sua historia Curitiba

Matéria sobre a conquista da via Rudolf Stam, primeira via com conceitos modernos para a época, aberta no Anhangava em Curitiba, em 1976 por Bito Meyer e Leonel Mendes e que serviu de escola para a formação do primeiro grupo de guias do CPM e escalada e desescalada em solo pelo Bito em 1985.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Conquistas no Anhangava-Curitiba em 1977 Parede Rudolf Stam


Matéria publicada no Jornal O Estado do Paraná em 1977. Conquista da Parede Rudolf Stam no Morro do Anhangava em Curitiba.

Na foto Bito Meyer, eu escalando, reparem nos detalhes dos equipamentos: corda de cisal, cadeirinha de minha fabricação com cinto de segurança de carros, manhone para rapel feitos com tubos de alumínio serrado ao meio, mosquetões de aço e relógio de pulso marca Oriento.

terça-feira, 30 de junho de 2009

DISTRÁIDOS VENCEREMOS FACE NORTE BAÚ


REVIRANDO MEUS ARQUIVOS ENCONTREI UM ANTIGO EXEMPLAR DO MOUNTAIN VOICES DO ANO DE 1992.

Fato histórico que relembra as origens de escaladas importantes da região, numa época aonde não havia ainda a internet de hoje, que felizmente nos dá mais e melhores opções de registro e pesquisa.

Prestem especial atenção na parte em que os autores descrevem a participação dos escaladores na via, e tenham boas surpresas...notem como alguns fatos são distorcidos com o passar dos tempos.

Vejam abaixo a reprodução na íntegra da matéria, boa leitura!


MOUNTAIN VOICES ANO III NÚMERO 13 SET/OUT 1992 Cr$8.000,00
FACE NORTE DA PEDRA DO BAU - O PROJETO TKTS

A conquista da via "Distraídos Vence­remos" na face Norte da Pedra do Baú, em São Bento do Sapucaí (São Paulo) é sem dúvida uma das principais vias de es­calada em rocha abertas recentemente no pa ís, podendo ser considerada a principal via deste' conjunto montanhoso, sendo seus protagonistas, Bito Meyer e Edson Struminski (Du Bois), de Curitiba, Eliseu Frechou, atualmente morando em São Bento e José Luiz Pauletto, de São Paulo.
Por outro lado, pela cobertura jornalís­tica que recebeu, acabou tornando-se o evento montanhístico do ano.

Aspectos da via
A "Distraídos Venceremos" desenvol­ve-se no trecho mais extenso de rocha exposta da Pedra do Baú, na face voltada para São Bento, intercalando nas 3 e 4 corda­das iniciais, rampas de aderência ou agar­ras, com pequenas fissuras, diedros ou fendas de mão, que foram percorrido em escalada natural, sendo a proteção feita com equipamento móvel (friends grandes e nuts também grandes), 3 paradas (finais de cordada) foram feitas originalmente em móvel ou em proteção natural (árvo­re) e uma parada em chapeletas. A difi­culdade máxima encontrada neste trecho está em torno do 5° grau.
A cerca de 120 metros do chão insta­lou-se em bivaque para pernoite que foi mantido até o final da conquista, em pla­tôs de vegetação secundária (capim) e que serviu de ponto de partida no ataque à parte mais difícil da escalada, um trecho vertical que na maior parte é negativo e que consumiu os dias restantes da con­quista. Procurou-se evitar nesta parte o uso desnecessário de proteções fixas na pedra, algo que a ética moderna de mon­tanha classifica como "escalada limpa". Um pequeno trecho em artifical fixo (re­bites), foi aberto com o auxílio de uma furadeira elétrica, permitindo economia de tempo e do desgaste natural que ocor­reia se o mesmo trecho tivesse de ser aber­to no martelo. Nos cerca de 90 m deste trecho encontrou-se nesta primeira as­cenção dificuldades naturais de até 7° grau, e artificiais de A2 a A3.

Toda esta parte da escalada, com colo­ração avermelhada característica, apresentou grandes problemas aos escaladores em vista da descamação da rocha na forma de placas que iam desde pequenas agarras até platôs inteiros com dezenas de quilos, apresentando possibilidade de queda imi­nente para o guia e bombardeio garantido a quem ficasse abaixo.
A uns 20 m do cume a parede volta a apresentar-se mais simpática, com fissuras que permitiram o uso de material móvel, além de surgir um belíssimo platô (platô do anoitecer). A dificuldade desta passa­gem, em torno de 5° grau, pode aumentar no caso de umidade (neblina, chuva), co­mo ocorreu durante os dias de escalada.
Personagens
Outros acontecimentos e pessoas tive­ram destaque nesta história e por isso me­recem ser citados.
• O acidente com Elizabeth B. Frechou: este acidente ocorreu durante algumas to­madas para o programa Fantátisco da Rede Globo, após os repórteres pedirem ao es­calador Pauletto para puxar um saco de lona com equipo que iria ser usado na es­calada. Depois desta cena Pauletto prosse­guiu no reboque do saco enquanto o pes­soal abaixo se organizava para nova to­mada. 15 metros acima o saco engatou em uma grande pedra que soltou-se após pressão para liberar o reboque, atingindo Elisabeth. Rapidamente organizou-se o atendimento e evasão do local, enquanto pessoas desciam até São Bento em busca de socorro médico. Os repórteres da Glo­bo acabaram entrando na roda e dividi­ram o trabalho de remover Beth até a ambulância, que já havia chegado nesta al­tura. O resgate foi bem sucedido e Beth já se encontra em recuperação no momento em que este texto é escrito, apesar de 8 costeias quebradas. No momento do aci­dente, cerca de 12 pessoas encontravam-se na base da parede, além de equipo de escalada, material fotográfico, de vídeo, etc. O saco de reboque acabou parcial­mente destruído.
• A idéia de que a equipe do Baú preten­de escalar o Everest em 93: trata-se de uma pretensão até o momento apenas de Pauletto, que apresentou-se na imprensa como "o mais experiente dos 4 alpinistas que escalaram a Pedra do Baú" e chefe da expedição "Everest 93", os demais escala- . dores que participaram do evento tem, como é natural, inúmeros projetos dentro do montanhismo,. abstendo-se porém de divulgá-Ios, em respeito ao próprio even­to em si.

• Personagens fantasmas: ectoplasmas que estão em moda na crônica recente de nosso país e que apareceram também na escalada do Baú.
1. O "Japonês Taradão": conhecido es­calador paulista que logo que soube da realização da via apressou-se em aparecer em São Bento, exigindo um croqui da via, para repetí-la imediatamente.
2. O "espeleólogo trapalhão": explo­rador de cavernas e fotógrafo free-Iancer que cobria a escalada para uma revista de aventura e esportes de ação, este simpáti­co e prestativo personagem, acabou no entanto vrtima de um descuido durante uma descida noturna, causando um aci­dente e destruindo parte do seu equipo fotográfico.
3. Piton e Nut: vira-latas de Eliseu Fre­chou: pulavam em cima de todos os re­pórteres que apareceram em São Bento.
• Croqui da via: foi apresentado pelo es­calador Pauletto um croqui da via em um jornal paulista, com incorreções e deno­minações inexistentes. O croqui ilustrati­vo apresentado nesta matéria pode ser considerado o mais exato. Croquis téc­nicos podem ser solicitados aos demais es­caladores.


· A participação dos escaladores na via:

1. Eliseu Frechou: organizador do evento, contatando escaladores, profissio­nais da imprensa, patrocinadores e pessoal de apoio. Participou de 2 bivaques (per­noites) na parede, auxiliou nas tarefas de reboque do equipo, trabalhos fotografi­cos, conquistando cerca de 10 metros em escalada natural no trecho mais difícil da escalada, colocando uma - proteção fixa (rebite).

2. Edson Struminski (Du Bois). Abriu 3 cordadas cerca de 120 m em natural com equipo móvel no trecho inicial da escalada, um pequeno trecho em natural na parte mais difícil da parede, com uma proteção fixa e os 20 m finais da via também em móvel, participou de todos os biva­ques feitos na parede e realizou as tarefas comuns aos demais do grupo.

3. José Luiz Pauletto: também partici­pou das atividades gerais do grupo. Abriu a primeira cordada (cerca de 25 m) em natural, móvel da via, fixando 2 rebites ao final do trecho, 5 metros na segunda parte da escalada, com um rebite colocando ainda 4 rebites fixos em uma parada anteriormente feita em móvel por Du Bois. Participou de alguns bivaques na pa­rede, retirando-se durante a escalada pa­pra prestar declarações em jornais de São Paulo e emissores de TV voltando poste­riormente para a conclusão da via.


4. Bito Meyer: realizou como todos, as tarefas gerais do grupo, permaneceu em todos os bivaques necessários para a conclusão da via. Abriu os cerca de 90 me­tros mais difíceis e delicados da parede em escalada artificial móvel e fixo e natu­ral móvel e fixo.

O nome "Distraídos Venceremos" é uma homenagem a leveza de espírito do poeta paranaense de alma universal Paulo Leminski; um estudioso da filosofia orien­tal Zen, a qual possui muitos pontos em comum com o despojamento necessário para a realização de escaladas difíceis. Le­minski escreveu entre outros um livro de poemas com o título dado ao nome desta escalada e que vale a pena ser lido.
Bito Meyer, PR Eliseu Frechou, SP

Considerações
Como acontece nos bons filmes, a via "Distraídos Venceremos" acabou sendo um sucesso de público e de critica. A im­prensa preencheu suas necessidades de as­suntos interessantes para os seus consumidores, o patrocinador, a empresa de confecção TKTS teve amplo e variado retorno para os dólares investidos no evento, declarando-se plenamente satisfeita com o trabalho profissional os se a res; a população de São Bento sentiu-se li­sonjeada com a divulgação da cidade, retribuindo isto de forma carinhosa e hos­pitaleira e, finalmente, os montanhistas em geral acabaram recebendo uma nova via de escalada que, se não é a "melhor" ou coisa parecida do Brasil, certamente exigirá conhecimentos e experiência, brin­dando em troca aos escaladores que fo­rem repetí-la momentos de puro prazer no exercício da moderna técnica de esca­lada em rocha.