DEU NO BV! sábado, 19 de setembro de 2009
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DEU NO BV! EDITORIAL(ll) TUDO A SEU TEMPO
sexta-feira, 31 de julho de 2009
EDITORIAL(I)

Aprendendo a ser um Montanhista
Aprendi a escalar sozinho e antes de completar 15anos eu ja havia escalado as principais escaladas do Marumbi e tambem já ensinava e guiava muitas pessoas. Por anos a fio fabriquei a maioria de meus equipamentos, criei clubes e associações de montanhismo e escalada e guiei e ensinei todas as gerações de escaladores e montanhistas que surgiram nestes anos de forma direta e indireta. Hoje estou com 52 anos de muitas montanhas, escaladas e rock and roll e até hoje a razão de eu acordar são as montanhas e as escaladas e como nos primeiros anos, abro vias constantemente e estou constantemente na montanha ou voltando para elas; não parei nem um instante ,apezar de alguns "pseudos" terem apostado que eu jamais voltaria a escalar depois de meu acidente.
Nestes anos todos o meu relacionamento com as montanhas e seu universo, foi mais além do fato de eu me transformar em um "esportista" ou um Marumbinista, eu queria ser um montanhista como aqueles que eu via nas fotos preto e branco, nos raros e velhos livros que chegavam em minhas mãos quando percebi que as montanhas existiam e que me apaixonei por elas e elas estavam espalhadas por ai.
Frente a essa realidade e em uma época em que não havia futuro, pois vivíamos em uma época onde as diferenças políticas separavam as pessoas, eu optei por ser um montanhista, como “personagem”, neste curto período de consciência que é a vida e através desta analogia me relacionar com a existência(existem vários personagens que você pode assumir como seu, nesta brincadeira de descobrir o que é ser "isso" e antes de morrer).
Sou um montanhista e tudo que faço e treino são para utilisar em montanhas, mas confesso que uso a escalada como um "exercicio nobre" e sempre valorizei ao escalada natural e o solo, manifestações da “Arte do Movimento na Vertical”, nome que batizei essas atividades, para meu próprio deleite e da qual sou um eterno aprendiz ; também me divirto muito pelos big walls da vida(deliciosa engenharia), mas sempre me relacionei com meu equipamento, como um mecânico ou um arqueiro, se relacionam com os seus, com profunda paixão e intimidade, para que sejam a extensão do meu corpo e uma expressão de minha inteligência. Nunca carreguei meu equipamento na mochila, como sinônimo e garantia de minha coragem e nunca baixei uma montanha ou via até meu nível, para que pudesse "fazê-la", fiz por merecer cada uma delas e tenho como predicado minhas cicatrizes e surras que ganhei cada vez que verdadeiramente e diretamente me relacionei com o lado de fora e a ponta da corda e com a minha sincera intenção de ser um montanhista e de aprender e tento até hoje, ser merecedor desta maravilhosa manifestação, dessa arte que tanto me fascina.
Voltando ao Marumbi, mantive em segredo minhas idas ao Marumbi, de meus pais, até quando no inicio de 1974 eu tive um acidente de rapel e não foi mais possível esconder deles minha atividade, que eu chamava de “excursão do colégio”. Pra minha surpresa meu pai me ajudou a comprar meu primeiro equipamento, que na época, não passava de uma corda de nylon de 30 mts, mochila, kichute e um par de joelheiras de futebol para usar nas chaminés e fendas. A partir daquele momento, com o consentimento dos meus pais, eu me tornei um montanhista; eu tinha 15 anos. A partir daí, toda minha vida aconteceu do lado de fora, no meio da chuva, vento, sol e frio, exatamente como eu escolhi.
É verdade que o montanhismo e a escalada de hoje é um retrato do homem moderno e existem muito mais razões “palpáveis e justificáveis” para tornar-se um montanhista ou um escalador, do que tínhamos 40 anos atrás. Hoje existe todo o tipo de sedução e “vantagens” diretas e econômicas, que vão desde alguns “trocados e notoriedade" a um cargo de “confiança” em alguma pocilga. (Isso faz com que algumas pessoas tentem se parecer com “um de nós”).
Mesmo com todos os "Piolhos e Satelites"(Nome de uma nova via que abri com karina(8+),por aí, existe "algo" que não muda na prática do montanhismo, que é tirar as pessoas de dentro de suas casas e colocá-las do lado de fora, em situações em que faltam argumentos para o seu cérebro agir de maneira vulgar e ele então não encontra explicações "vulgares"para as coisas que se revelam na sua frente, então ele se cala e neste momento surge algo novo e original, e assim começa a paixão pelas montanhas e voce nunca mais volta pra casa..."só passa la para pegar uns treco"
Bito Meyer, Montanhista
Entrevista com Bito Meyer, uma lenda do montanhismo brasileiro
Por Filippo Croso 11/03/2008
Portal Webventure http://www.webventure.com.br/bike/conteudo/noticias/index/id/21903?pag=1
Na quarta feira, dia 05 de março, O CAP (Clube Alpino Paulista) recebeu Bito Meyer, que fez uma palestra sobre sua trajetória de 40 anos de escalada (ele tem hoje 50 anos de idade).Pude presenciar uma das palestras mais envolventes que já estive, com histórias de vida, espírito de comunhão com a natureza e a montanha, e o grande desconhecido interior.A foto de um movimento de escalada podia passar rápido, mas a foto do Bito com seus 20 anos de idade, viajando em cima (do lado de fora) do trem da morte na Bolívia, permaneceu um tempo, enquanto ele relatava aquele estado de espírito de buscar o "lado de fora", de descobrimento e criatividade, que é tão característico de quem escala.Apaixonado pela escalada solo, Bito é o exemplo de uma pessoa que vive e pratica a sua filosofia de vida, com simplicidade e coração, espiritualidade e desprendimento, e em plena atividade (conquistou recentemente a via Cria Cuervos D6 7º E5, 1200m, na Pedra Riscada, e solou pela segunda vez a via Leste no Pico Maior de Friburgo, vinte anos depois da primeira, no final de 2007).
Acompanhe a entrevista exclusiva com o montanhista:
Alegrias, frustrações e a nova geração
Essa é uma pergunta muito complexa e eu não saberia respondê-la em poucas palavras, porque envolve a fragilidade humana na sua essência e teríamos que saber até onde o risco influenciaria a prática de uma arte, e até onde a idade é um fator essencial para a perfeição. Eu não enfrentaria um velho que há 50 anos exercita e pratica artes marciais e por outro lado dificilmente um homem sábio que conheceu o amor e que possui uma família se arriscaria a ponto de faltar para ela, pois "ela" é o essencial.
A vida e a montanha
Personalidades e História Bito Meyer, histórias e conquistas de um expert, uma lenda do montanhismo

Bito Meyer foi um dos primeiros brasileiros a escalar montanhas de extrema dificuldade como o Fitz Roy, Cerro Torre e Agulha Poincenot (um dos recordes de velocidade de ascensão mantidos até hoje) na Patagônia, Bolívia, El Captain nos EUA e a ter conquistado em terras brasileiras centenas de vias de escalada por todo o país.
Bito Meyer continua realizando grandes conquistas, como por exemplo a face sul da Pedra Riscada (Veja matéria: www.brasilvertical.com.br), que é o 5º maior monolito do planeta. A conquista da Via "Cria Cuervos" (7 E5 D6) com seus 1200m de parede que foi realizada ao longo de cinco anos e segundo o próprio Bito foi a via mais difícil e arriscada que ele já conquistou até hoje.
A nova geração de montanhistas deposita grande respeito e admiração por Antônio Carlos Meyer, ou simplesmente Bito, tido como um dos grandes nomes do alpinismo no Brasil. Bito nasceu em Curitiba, em 5 de julho de 1957, filho de Albino Meyer e Odila Meyer, e traz seu apelido, desde os tempos de infância recebendo por ser "meio pesado", o apelido de Chumbito que mais tarde, graças à mania nacional de abreviar tudo, resultou no atual Bito. Até os treze anos de idade, viveu em Alegrete, Rio Grande do Sul, onde vivia em constante contato com a vida ao ar livre, o campo, a fauna e a flora local.Certa ocasião acompanhou o pai numa pescaria, fato que acabou se tornando na faísca que faltava para incendiar a fogueira. Daí para frente a sede de mato era tanta, que resolveu ingressar no escotismo, onde permaneceu alguns meses, até descobrir, que sabia mais que eles. Mais tarde voltou para Curitiba, dando continuidade aos seus estudos. Em janeiro de 1970, num belo fim de semana, resolveu conhecer, em companhia de três colegas, o então desconhecido (para eles) Marumbi. O quarteto resolveu subir o Abrolhos, num passeio que prometia ser um sucesso, se não fosse o fato de na descida, terem entrado na picada do rio seco, que obrigou o destemido quarteto a mais de seis horas de penosa caminhada até chegarem a Estação do Marumbi. Naquele dia, Bito jurara, por tudo que é santo, que não voltaria mais ao Marumbi.De fato, como todo montanhista que se preza, no dia 14 de março voltava ao Conjunto e fazia a sua primeira escalada "técnica", a Bandeirantes no mesmo Abrolhos.Em meados de 1970, Bito e mais alguns amigos, resolveram conhecer o Anhangava. Saíram de Quatro Barras, traçando uma linha reta até algumas paredes que viam a distância e que não tinham a certeza ser o Anhangava, pois ninguém em Quatro Barras, sabia onde era o tal morro Anhangava. Os nativos apenas conheciam o morro da Santa. Na falta de informações mais precisas, saíram transpondo fazendas, casas, riachos, correndo de cachorros, até chegarem as almejadas paredes. Esgotaram todas as possibilidades que as pedras ofereciam escalando sempre com segurança de cima, pois a maioria das vias escaladas não estavam grampeadas.
Daí para frente, não sossegou mais tendo virado todos os cantos da Serra (Serra da Prata, Pico Paraná, Arenitos de São Luiz do Purunã, algumas grutas, etc...) e que culminou com a 1ª Expedição Brasileira em 1973, ao Pico Illimani (Face Oeste) na Bolívia, onde escalou gelo pela primeira vez, acompanhado dos amigos Danilo, Leonel, Inglês. No Brasil, conheceu quase todas as montanhas escaláveis incluindo à "Pássaro de fogo" no Rio de Janeiro, tida como uma das escaladas mais difíceis no Brasil.
Bito é um incansável defensor da "escalada com segurança de cima", pois acredita que este sistema de escalada oferece mais vantagens do que as rotas pré-estabelecidas (grampeadas). A escalada com segurança de cima, oferece condições supremas e de todos os níveis aos montanhistas, que precisa seguir uma linha prefixada, ganhando assim mais liberdade nos movimentos, que por conseqüência tornam-se estes movimentos mais harmônicos. Com este sistema, o montanhista pode escapar naturalmente das situações que a pedra lhe impõe, de acordo com sua situação, condição e capacidade afinal, "a montanha não é um inimigo a enfrentar e sim um amigo a freqüentar".Bito cita o caso da via Principantes (no Anhangava), escalada que muitas vezes subiu em livre com segurança de cima, sem maiores dificuldades, até que um dia colocou-se um verdadeiro paliteiro no local, desvirtuando uma belíssima rota natural. Bito, vêm de um tempo, onde o importante era escalar e conquistar, pouco importando se batia ou não grampos. Hoje em dia, existe a mania de considerar rota conquistada somente as grampeadas, que muitas vezes levam nomes pomposos, e que nem sempre são concluídas, porque seus autores não conseguem entender que alpinismo não é uma coisa doméstica.
Alguns montanhistas infelizmente estão mais interessados em publicidade em torno de seus nomes, em entrarem para a posteridade batizando alguma escalada, do que propriamente, em escalar.Na década passada, Bito recorda-se que o montanhismo era feito "meio na louca", laçava-se grampo, amarrava-se corda na cintura, usava-se de tudo que é meios e artifício para subir, todo mundo se bitolava no Anhangava. Nesta época conheceu Leonel Mendes, com quem iniciou uma parceria que perdurou por muitos anos. Leonel na época, não praticava alpinismo com freqüência, mas tinha sólidos conhecimentos de tudo que se passava no montanhismo europeu e americano, através de revistas e periódicos que recebia.Assim começou uma espécie de intercâmbio de informações onde Leonel entrava com os conhecimentos técnicos e Bito com conhecimentos práticos. A dupla tinha uns lances pitorescos, pois quando iam a montanha, invariavelmente um vestia uma camiseta verde, e outro uma camiseta amarela, o que naturalmente provocara risos e gozações por parte dos colegas. Engraçada ou não, a dobradinha verde-amarela era incansável, e entre outras escaladas fizeram todas as fendas da Esfinge, a Oeste em todas as suas formas e todas as escaladas do Parque do Lineu, também foram escaladas por Bito em solo.A dupla, além de esforçada tinha grandes ideais, pois almejavam atualizar o montanhismo paranaense, colocando-o entre um dos melhores do mundo. Mas esta pretensão, era no sentido de não se submeterem. Bito em muitas ocasiões chegou a passar a imagem de arrogante, por suas posições neste sentido.Esta vontade ferrenha de evoluir e melhorar, levou Bito a pensar na criação de um clube onde aficcionados do esporte, pudessem conversar, trocar idéias e se atualizar. Bito recorda que era frustrante ver os jovens da década passada irem para o Marumbi, passarem seu tempo entre "bebedeiras e mulheradas" enquanto os veteranos dedicavam-se as suas caminhadas, que tampouco interessavam aos jovens. É verdade, que este problema existe hoje em dia, mas com uma diferença fundamental, que entre as "mulheres e bebedeiras" existe um bom grupo de jovens interessados e que praticam alpinismo.O Clube Paranaense de Montanhismo nasceu de uma brincadeira de crianças, um sonho, que aos poucos foi ganhando contornos de realidade. O Clube, passou alguns anos sem ter existência jurídica (estatutos registrados, atas, etc...) mas tinha existência física. Deu-se o nome, criou-se o distintivo, que aliás, foi extraído de um Clube de Montanha do Canadá. Para que o distintivo não fosse exemplo de um plágio gritante, providenciou-se algumas mudanças trocando-se a neve que existe no original por nuvem, e o pinheiro canadense por uma regionalíssima araucária. Bito acha que o Clube atualmente, atingiu uma proporção difícil de acompanhar, talvez por estar afastado algum tempo do Clube pois mora em outro Estado. Mas, apesar de não poder sentir toda a realidade em torno do CPM, acha que o Clube está bem assessorado, e tem bons amigos, como a ADEA, ITC, SUREHMA, SECRETARIA DO INTERIOR entre outros, e isto é muito promissor.Quanto aos sócios, sentiu que a gurizada (que me desculpem) está muito devagar. Falta pique pra moçada. Outro problema é a desunião, formação de alguma "panelinha", autoridade no sentido de ter que esperar uma ordem para aprender, quando a pedra está ali, bastando apenas ir a ela. O pessoal confunde alpinismo com "boulder", que não passa de uma brincadeira para passar o tempo. Quem sobe o meio fio de uma calçada, ou tropeça numa pedra está fazendo "boulder". Que não fiquem perdendo tempo, medindo quem tem melhor técnica pois de nada adianta saber fazer um 10º grau Sup. Se não consegue transcender o menor amor por aquilo que está fazendo.Bito, sempre soube se relacionar muito bem com os jovens, por isso, ao término desta entrevista, solicitamos, que transmitisse um pouco de sua experiência a nova geração de montanhistas, através de algumas palavras. Finalizou esclarecendo que a base de seu entendimento com os jovens, sempre foi o respeito recíproco, e não ficar "podando" os meninos, cada vez que tentam externar sua vontade, não o seguissem, e tampouco copiassem outros alpinistas. Usem de toda a sua espontaneidade e liberdade para criar. E acrescenta, que não coloquem ninguém em pedestais distantes demais, pois a distância acaba impedindo de ver, do que esta pessoa é feita.
Só se aprende a escalar indo a pedra, de outra maneira a coisa não acontece. Ir a um Clube não basta, mesmo porque um Clube somente será de montanha, à medida que seus sócios freqüentarem a montanha. Vençam suas próprias limitações, quebrem seus próprios recordes, lembrando que só vai ser alpinista, quem estiver na pedra. Quando descer, enrolar a corda, a coisa transforma-se em papo e marola. Stamm* já dizia, quem quer escalar "pega a mochila e se manda". Atualmente Bito Meyer reside em São Paulo e mantém junto com Karina Filgueiras o site especializado em escalada Brasil Vertical.