sábado, 19 de setembro de 2009

DEU NO BV! Via nova "Anjos Covardes" no Baú

DEU NO BV!
Pessoal tem via nova na Pedra do Baú , "Anjos Covardes" 5+ 7a/b E3 120m. Via bacana, dá para levar aqueles brinquedinhos (nuts e etc) para brincar na Face Norte do Baú. É mais uma via "excitante" que vai mexer com você.Um intinerario original e técnico, Karininha(rock & roll) conquistou o segundo largo, bonito e exposto e depois a via se une com a via "Latindo pra Poeira" e se separam no último largo, com os ultimos lances bem aéreos.

Confira no site http://www.brasilvertical.com.br/ e boas escaladas.

EDITORIAL(ll) TUDO A SEU TEMPO

Tudo a seu tempo
Valeu rapaziada!, pelos e-mails e pelo apoio, mas como eu disse não tenho como acelerar as atualizações do blog, mas vamos indo, morro acima. Tava escalando e atrasou tudo; irei respondendo as perguntas e os e-mails com o tempo, conforme forem chegando e por assuntos.
Na realidade estamos trabalhando em vias novas e já temos algumas vias para colocar na roda, são elas : Pedro Bó e Dona Terta, Simpatia Errada, Corre Atrás e Antimicrobial. Logo os croquis e os graus estarão disponíveis no site http://www.brasilvertical.com.br/ a disposição de vocês.
Verdade sem humor não rola e o meu esta ácido, estou adorando comer "PF' frio. ''Valinhos'' valeu pela força, quebrou maior galho...valeu pela profunda frase que vc mandou, vou dividir com a galera...''Estamos tranquilos, sabemos de onde vem as avalanches'' Fala serio!! Profundo...
Escrevam nos contando sobre as suas escaladas e sobre as regiões que vocês escalam. No mais ... Abraços...Boas escaladas...valeu!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

EDITORIAL(I)



EU TAVA QUIETO...
Existem vários motivos que me levaram a montar este blog. Os amigos e pessoas queridas me pediram para "começar" esse espaço e falar do que eu faço e de como eu faço e contar um pouco da minha vida como montanhista, que na realidade, é praticamente toda minha vida.
Certos acontecimentos recentes, engraçados e patéticos , também me incentivaram a sair de meu relacionamento sossegado e íntimo com as montanhas e escaladas e falar diretamente, enquanto for possível, com as pessoas realmente interessadas em montanhismo e escaladas e que procuram fazer destas atividades algo além dessas necessidades vulgares que vemos por aí como grana, fama, e histórias mal contadas.
Hoje em dia com a internet é possivel para “qualquer um” colocar um blog ou site e falar sobre montanhismo e escalada, mesmo para os que não sabem o que uma coisa tem a ver com a outra, e até mesmo sem praticar, uma coisa ou outra. Outro dia eu vi uma foto de uma pessoa que se auto denomina montanhista e fiquei pensando na "puta" sacanagem com quem realmente se relaciona com montanhas e esta quieto em casa; nós que somos realmente montanhistas, sabemos que muitas pessoas que se intitulam montanhistas, estão distante de ser um e muito menos tem cumes no seu currículo, e que escalou muito pouco para ser o que outorga a si próprio, como títulos de "o maior , o super , o mais" e etc. Esse tipo de necessidade e títulos, faz com que nós, que realmente fazemos, somos e praticamos montanhismo, sejamos elevados a nível de "deuses" (ja que o nosso currículo é maior, mais reachedo de verdades, sacrificios e dedicação, que essas pessoas) e nós não queremos esses títulos, não precisamos deles, pelo menos eu e meus amigos. Esse tipo de manifestação é uma necessidade de quem tem problema de adptação, de ego estragado ou complexo de inferioridade, sentindo-se assim, mais forte , superior , inteligente e "bunitinho" ou até coisas mais "normais" como ter amigos, ser querido e pertencer a uma tribo e para algumas pessoas não precisa nem render um "troquinho", só um espacinho já tá bom. Não adianta ficarem "brabos" e "sapatear em cima da cueca", eu sei do que to falando.
O montanhismo e escaladas é uma atividade perigosa e é praticada na ponta da corda e existem pessoas que gostariam de ser "um montanhista", mas como é uma atividade perigosa, praticam um "faz de contas" e passam a acreditar que realmente o são e com isso dane-se o montanhismo; é como um "cliente 8000" que vende excursão por expedição. Também faço uso da velha frase que e´:-"É lógico que não tô falando de todo mundo"; mas é muito fácil ver esse tipo de manifestação, basta olhar ao seu redor.
Fama ...fama...superioridade.....grannnna...huauuuu!!!!!!...conheço pessoas que tem ereção com este assunto...
Pois bem, com um computador na mão, até um cérebro musculoso, cheio de testosterona, mas que tem medo de altura, pode falar em montanhismo e escalada, então vou me atrever a falar...um pouquinho.
Este blog conta com a colaboração e trabalho de várias pessoas, de vários estados e levaremos um tempo para organizar e sincronizar tudo, os erros serão corrigidos assim que pudermos. Com tempo e com as observações de todos, iremos atualizando, corrigindo e acrescentando novos relatos e acontecimentos ao blog; assim como irei comentando cada fato, foto e momento que cada matéria retrata, iremos tambem, pesquisar sobre o montanhismo e escalada em geral e “digitalizar” as matérias antigas que contam a história do montanhismo por aqui e "por lá" e que contribuem para melhor entender essa paixão que temos em comum.
Confesso que esse trabalho a frente de um computador é mais fácil que escalar e digo isso porque um blog é como um papel em branco que aceita tudo e é muito fácil criar uma realidade somente “virtual”, sem tirar a bunda da cadeira e colocá-la na reta, já que atividades e manifestações humanas que requerem “atitude e determinação”(qualidades básicas para um montanhista e escalador) sempre tem os dois lados da moeda e o risco envolvido na “parada”, tem seu peso. .
Nunca tive nada organizado, nem minhas fotos e nem as matérias que publicaram a meu respeito e nunca precisei dessas "coisas" para escalar minhas montanhas, por outro lado será divertido brincar de "personalidade"
Desde já quero agradecer aos amigos que tem colaborado, mandando fotos, reportagens e pela ajuda para montar esse blog, assim, pretendemos atualizar esse blog com frequência e aceitamos sugestões e material e quanto aos erros que possam existir, serão corrigidos assim que localizados.
A montagem deste blog revela na realidade, o carinho que as pessoas tem com relação ao montanhismo, atividade essa que nos une em algo em comum. Meu agradecimento especial a Karina Filgueiras minha companheira de corda.

Aprendendo a ser um Montanhista
Foi durante uma viagem de trem com meus primos, para Paranaguá, no litoral do Paraná, que eu vi o Pico do Marumbi e ouvi falar dele pela primeira vez. Pra minha sorte o tempo estava limpo na região e pude vê-lo e na imaginação de uma criança era fácil imaginar-me escalando-o. Eu já era escoteiro e conhecia algumas manobras de cordas e também conhecia o montanhismo clássico dos livros sobre atividades ao ar livre que tínhamos na biblioteca do nosso grupo de escoteiros, que era numa igreja Mórmon, no Alegrete, a cidade mais tradicionalista do Rio Grande do Sul.
Em 1970 voltei ao Marumbi, com uma “excursão do colégio”(foi o que eu contei para meus pais), a intenção era subir o "Pico Olimpo" que era o mais alto e acabamos, por não o conhecer a região, escalando o Pico do Abrolhos. Frustrado pois queria subir o mais alto, voltei alguns meses depois para subir finalmente o Olimpo, mas erramos novamente e acabamos escalando o Pico do Gigante e somente na terceira tentativa, subindo a trilha conhecida como "Noroeste" e que passa por outros cumes, como:_a Esfinge, Ponta do Tigre e Torre dos Sinos e finalmente o "Olimpo". No cume do Olimpo, encontramos uma pessoa que nos informou que o Olimpo não era a maior montanha do conjunto.

Aprendi a escalar sozinho e antes de completar 15anos eu ja havia escalado as principais escaladas do Marumbi e tambem já ensinava e guiava muitas pessoas. Por anos a fio fabriquei a maioria de meus equipamentos, criei clubes e associações de montanhismo e escalada e guiei e ensinei todas as gerações de escaladores e montanhistas que surgiram nestes anos de forma direta e indireta. Hoje estou com 52 anos de muitas montanhas, escaladas e rock and roll e até hoje a razão de eu acordar são as montanhas e as escaladas e como nos primeiros anos, abro vias constantemente e estou constantemente na montanha ou voltando para elas; não parei nem um instante ,apezar de alguns "pseudos" terem apostado que eu jamais voltaria a escalar depois de meu acidente.
Escalo como qualquer “fera” e com qualquer "fera", bom, é fato que com 52 anos e com um joelho rígido e pouca disciplina para exercitar, posso deixar de fazer alguma coisa, assim como tambem é fato que poucos feras tem a liberdade de solar as vias que solo. Existe uma enorme diferença entre saber escalar e ser forte, assim como entre ser forte e saber lutar.

Nestes anos todos o meu relacionamento com as montanhas e seu universo, foi mais além do fato de eu me transformar em um "esportista" ou um Marumbinista, eu queria ser um montanhista como aqueles que eu via nas fotos preto e branco, nos raros e velhos livros que chegavam em minhas mãos quando percebi que as montanhas existiam e que me apaixonei por elas e elas estavam espalhadas por ai.
Na realidade essa relação me mostrou uma nova “química” em relação a vida, uma maneira diferente de existir, sem ser aquela de ter varios casamentos, carnês, prestações e preso ao exercício de "vir a ser" e de aproveitar os finais de semanas para viver.O que surgia na minha frente era uma possibilidade além das “coisas comuns”, era algo que estava além dos ensinamentos da escola, dos pais e da igreja, era uma relação direta com um universo mágico, além desse “cotidiano comum” com relação a vida e suas “coisas” e que assassina qualquer paixão e originalidade. Era uma oportunidade de ir "alem". Acho que ja falei isso...

Frente a essa realidade e em uma época em que não havia futuro, pois vivíamos em uma época onde as diferenças políticas separavam as pessoas, eu optei por ser um montanhista, como “personagem”, neste curto período de consciência que é a vida e através desta analogia me relacionar com a existência(existem vários personagens que você pode assumir como seu, nesta brincadeira de descobrir o que é ser "isso" e antes de morrer).
Nos anos 70 o montanhismo era coisa pra maluco e confesso que na época era preciso uma certa coragem e decidir ser um montanhista; era como eu já disse uma vez: _”é como estar na beira de um rio caudaloso, dentro de uma poça de água morna, confortável e protegido, sair dela e pular no rio e seguir com ele”.

Sou um montanhista e tudo que faço e treino são para utilisar em montanhas, mas confesso que uso a escalada como um "exercicio nobre" e sempre valorizei ao escalada natural e o solo, manifestações da “Arte do Movimento na Vertical”, nome que batizei essas atividades, para meu próprio deleite e da qual sou um eterno aprendiz ; também me divirto muito pelos big walls da vida(deliciosa engenharia), mas sempre me relacionei com meu equipamento, como um mecânico ou um arqueiro, se relacionam com os seus, com profunda paixão e intimidade, para que sejam a extensão do meu corpo e uma expressão de minha inteligência. Nunca carreguei meu equipamento na mochila, como sinônimo e garantia de minha coragem e nunca baixei uma montanha ou via até meu nível, para que pudesse "fazê-la", fiz por merecer cada uma delas e tenho como predicado minhas cicatrizes e surras que ganhei cada vez que verdadeiramente e diretamente me relacionei com o lado de fora e a ponta da corda e com a minha sincera intenção de ser um montanhista e de aprender e tento até hoje, ser merecedor desta maravilhosa manifestação, dessa arte que tanto me fascina.

Voltando ao Marumbi, mantive em segredo minhas idas ao Marumbi, de meus pais, até quando no inicio de 1974 eu tive um acidente de rapel e não foi mais possível esconder deles minha atividade, que eu chamava de “excursão do colégio”. Pra minha surpresa meu pai me ajudou a comprar meu primeiro equipamento, que na época, não passava de uma corda de nylon de 30 mts, mochila, kichute e um par de joelheiras de futebol para usar nas chaminés e fendas. A partir daquele momento, com o consentimento dos meus pais, eu me tornei um montanhista; eu tinha 15 anos. A partir daí, toda minha vida aconteceu do lado de fora, no meio da chuva, vento, sol e frio, exatamente como eu escolhi.

É verdade que o montanhismo e a escalada de hoje é um retrato do homem moderno e existem muito mais razões “palpáveis e justificáveis” para tornar-se um montanhista ou um escalador, do que tínhamos 40 anos atrás. Hoje existe todo o tipo de sedução e “vantagens” diretas e econômicas, que vão desde alguns “trocados e notoriedade" a um cargo de “confiança” em alguma pocilga. (Isso faz com que algumas pessoas tentem se parecer com “um de nós”).

Mesmo com todos os "Piolhos e Satelites"(Nome de uma nova via que abri com karina(8+),por aí, existe "algo" que não muda na prática do montanhismo, que é tirar as pessoas de dentro de suas casas e colocá-las do lado de fora, em situações em que faltam argumentos para o seu cérebro agir de maneira vulgar e ele então não encontra explicações "vulgares"para as coisas que se revelam na sua frente, então ele se cala e neste momento surge algo novo e original, e assim começa a paixão pelas montanhas e voce nunca mais volta pra casa..."só passa la para pegar uns treco"
Junto com o "novo" vem também um "entendimento", além da "Matrix", para os verbos “ser e existir” e uma nova relação com a vida nasce neste momento. Sei que assim falando, parece algo mágico e realmente é...você dá uma chance a sua alma e seu cérebro fica quieto ...sem ação...e nasce algo ‘novo”... é um “negócio maluco” e que eu faria tudo de novo.

Bito Meyer, Montanhista



Entrevista com Bito Meyer, uma lenda do montanhismo brasileiro

Bito na conquista da Cães e Caravanas em 2008

Entrevista com Bito Meyer, uma lenda do montanhismo brasileiro

Por Filippo Croso 11/03/2008
Portal Webventure
http://www.webventure.com.br/bike/conteudo/noticias/index/id/21903?pag=1
Na quarta feira, dia 05 de março, O CAP (Clube Alpino Paulista) recebeu Bito Meyer, que fez uma palestra sobre sua trajetória de 40 anos de escalada (ele tem hoje 50 anos de idade).Pude presenciar uma das palestras mais envolventes que já estive, com histórias de vida, espírito de comunhão com a natureza e a montanha, e o grande desconhecido interior.A foto de um movimento de escalada podia passar rápido, mas a foto do Bito com seus 20 anos de idade, viajando em cima (do lado de fora) do trem da morte na Bolívia, permaneceu um tempo, enquanto ele relatava aquele estado de espírito de buscar o "lado de fora", de descobrimento e criatividade, que é tão característico de quem escala.Apaixonado pela escalada solo, Bito é o exemplo de uma pessoa que vive e pratica a sua filosofia de vida, com simplicidade e coração, espiritualidade e desprendimento, e em plena atividade (conquistou recentemente a via Cria Cuervos D6 7º E5, 1200m, na Pedra Riscada, e solou pela segunda vez a via Leste no Pico Maior de Friburgo, vinte anos depois da primeira, no final de 2007).

Acompanhe a entrevista exclusiva com o montanhista:

Webventure: Como foi seu primeiro contato com a escalada?
Bito Meyer - Eu tinha 10 anos e foi no Pico do Marumby (PR) e foi uma experiência marcante, literalmente uma "aventura", que mexeu com minha cabeça na época.

Que tipo de escalada você mais gosta de fazer?
A que me leva a um cume e que exige de todo o meu ser e não só de meus músculos e meus equipamentos, que seja uma relação e um diálogo com a montanha e com todo o seu universo.

De que forma a escalada e o montanhismo contribuíram na sua vida e em sua formação como pessoa?
Na realidade a montanha contribuiu comigo na qualidade de "aprendiz de vida", me fez perceber o grande playground em que nascemos e onde o homem errou na sua trajetória em cima deste planeta e principalmente que vida e morte vêm embrulhadas juntas e no mesmo pacotinho.

Pegando 20 ou 25 anos atrás e os dias de hoje... o que mudou na escalada, e o que continua o mesmo, tanto em você como no meio montanhista?
Acho que podemos até pegar ainda mais atrás... para o montanhismo, a escalada sempre será uma das técnicas a ser usadas para se chegar ao cume de uma montanha e acompanhará a evolução da escalada em si, pois escalar bem e rápido sempre será uma forma de se manter seguro em uma montanha. A escalada em si é igual como antes, sendo que atualmente o grau subiu, o equipamento evoluiu e talvez o que tenha mudado é que o escalador moderno escale sem camisa para mostrar seu maior legado que são seus belos músculos e também ao fato de que hoje em dia tem várias "minas" escalando. E quanto a mim, sou cada vez mais apaixonado pela oportunidade de descobrir o lado de fora.

Alegrias, frustrações e a nova geração

O que é escalar bem para você?
É quando você consegue ser uma manifestação da arte, é quando não existe o eu, o ego, o vir a ser, e sim só a manifestação da arte.Como a idade influencia na escalada? Muitas pessoas sentem a limitação física e se tornam mais conservadoras, também porque constituem família, etc.
Como escalar bem, do ponto de vista físico e psicológico, acima dos 50?
Essa é uma pergunta muito complexa e eu não saberia respondê-la em poucas palavras, porque envolve a fragilidade humana na sua essência e teríamos que saber até onde o risco influenciaria a prática de uma arte, e até onde a idade é um fator essencial para a perfeição. Eu não enfrentaria um velho que há 50 anos exercita e pratica artes marciais e por outro lado dificilmente um homem sábio que conheceu o amor e que possui uma família se arriscaria a ponto de faltar para ela, pois "ela" é o essencial.
Como você se relaciona com a nova geração?
Sinceramente... não conheço ninguém que tenha começado a escalar antes de mim que ainda esteja escalando e no mesmo nível que eu e com o mesmo tempo. Este detalhe me torna o sul-americano mais velho em atividade e em anos "na ponta da corda", acho que são as novas e constantes gerações que foram passando na minha frente que poderiam responder essa pergunta. Eu particularmente sigo em frente, minha relação é com as montanhas. Por outro lado, as novas gerações serão sempre bem vindas pois é a arte quem os escolhe para através deles se manifestar, uns ficam por algum tempo, outros para sempre.
Qual a sua rotina de treinos? Como você se prepara antes de uma escalada?
Tenho o corpo malhado e cozido pelos anos de tanto ralar por aí, é tanto tempo dependurado que já tenho um pré "malho" estabelecido, por outro lado tenho o apoio da Casa de Pedra que me possibilita um acesso ao que de mais moderno existe para treinos de escalada no Brasil e tenho o acompanhamento de Karina Filgueiras, que é minha treinadora física, e prático biomecânica funcional, além do que sou bem-vindo pelas montanhas, total, sou uma "cria" delas...

Quais foram suas escaladas mais marcantes?
Descreva algum, ou alguns momentos especiais que você passou.Foram tantos, e todos na sua maioria foram marcantes, chegar ao cume das montanhas da Patagônia, ou minha primeira montanha, meu primeiro cume, meus primeiros 6º e 7º graus foram alucinantes, meus primeiros e último solo, meu primeiro tênis de escalada de verdade há 30 anos atrás, minhas primeiras conquistas e derrotas, minhas primeiras escaladas no Itatiaia e Rio de Janeiro, em 1977, e Agulha do Diabo neste mesmo ano. Putz..., Baú, Ilimani, Morro do Anhangava, Floripa, El Capitan... Interminável!

E alguma tristeza, alguma escalada que teve que abandonar?
Nossa... Só de lembrar já fiquei triste. É não poder mais mandar (sem ser em top rope, devido ao problema que tenho no joelho) o Midnight Lightning (o mais famoso boulder da história, localizado no Camp 4 -Yosemite).

A vida e a montanha

Qual o seu local favorito no Brasil? Por quê?
Não tenho o local preferido, no Brasil ou em outro país. Meu lugar preferido é o do "lado de fora".

Você teve um acidente sério durante um vôo de parapente. Quando foi e o que aconteceu? Como isso repercutiu na sua escalada?
Logo que chegaram ao Brasil os parapentes, saltávamos dos picos sem pára-quedas de socorro ou outro tipo de acessório de segurança. E em um desses vôos, um vento atrapalhou meu pouso e quebrei a perna e por dois anos atrapalhou minha escalada em tudo... hoje com o joelho rígido mando o grau que eu quiser e minha escalada é admirável.

A via mais recente que você abriu é a Cria Cuervos (D6 7º E5, 1200m), na Pedra Riscada.Conte-nos um pouco desta experiência, os aprendizados, as melhores lembranças.
Esta via é punk... Largos cheios, sem nenhum grampo, mil e tantos metros acima de qualquer conforto, lá na casa do chapéu (1400 km de Curitiba), cinco viagens para concluir a via, muito e muito esforço, cargas de água, comida, diversão e ferramentas, carrapatos, sol a pino, geadas e tormentas, muita responsabilidade, maturidade e insanidade, grana, tempo, suor e sangue...Yeah!... Perfeito.

Que lugar ainda não foi e gostaria ir?
São tantos, que faço de onde estou o melhor lugar e dos primeiros passos do dia, minha melhor caminhada.

Onde e quando é a sua próxima escalada?
Minhas escaladas não vem do desejo ou da manifestação do ego ou do querer, são frutos de uma fonte seca, eu simplesmente sento e espero... uma hora verte. No momento a fonte está seca.

Melhor livro e filme de montanha que já viu?
Bom, em particular eu recomendo a todo montanhista que quer ter alguma referência mais significativa, que conheça o pensamento de Reinhold Messner, mas o melhor livro sobre montanhismo que li foi "Os Conquistadores do Inútil", de Lionel Terray. Ali está a essência de algo muito delicado que é a imensidão humana. E o filme foi "Extremo Sul", pela capacidade dos diretores em recuperar o que estava perdido, por mostrar a maneira de como não se escolher os companheiros e de como não praticar montanhismo, e também e o mais importante, do poder de uma montanha sobre exércitos e homens.

Você nunca esteve muito presente na mídia. Até na comunidade escaladora me parece que você nunca estava no centro das atenções, mesmo tendo realizado várias ascensões significativas. A que se deve esse fato, ou essa escolha?
Quando eu era um garoto eu já descobrira a "marcialidade" e a espiritualidade que existe na relação do homem com a escalada e com as montanhas. Daí então, minha relação tornou-se direta com a "Arte" e suas "manifestações". Eu queria para mim o que estava contido naquele frasco. As pessoas que estão em evidência ou precisam de atenção, tem algum problema ou estão vendendo algo e não é meu caso. As pessoas interessantes do montanhismo, geralmente não estão na mídia, estão em casa com suas coisas e os seus.

Existem escaladas praticamente risco zero e escaladas de risco elevado, por mais que se esteja preparado.O que o risco representa para você?
O risco é um ótimo tempero para quem quer amadurecer, se conhecer e evoluir. Nos expondo, nos revelamos... nos descobrimos... Quando dois samurais se defrontam, é o conhecimento que saca e maneja a espada.

O montanhismo brasileiro está evoluindo? Quais os pontos positivos, e o que você sente que falta?
O Montanhismo é o nome da "influência" que as Montanhas exercem sobre os homens, portanto, sempre será atual, já o "Montanhista Brasileiro" esse ainda é bastante ingênuo.

Quais os seus projetos futuros?
A vida é um "Vôo de Catapulta" (nome de minha nova via), eu ainda me sinto mais propulsado, do que sinto empuxo. Estou topando todas, injeção embaixo da pálpebra e "passagem só de ida pro lugar errado". Há muita coisa a ser feita, muitos convites e oportunidades, tem que pular no rio para conhecer seu trajeto, estou no meio de um grande rio.Alguma mensagem que gostaria de deixar?Tudo a seu tempo... apesar de toda a violência, a vida é uma grande dádiva, é uma oportunidade única, e a escalada e o montanhismo nos ajudam na nossa trajetória sobre este planeta... Obrigado.

Personalidades e História Bito Meyer, histórias e conquistas de um expert, uma lenda do montanhismo


Personalidades e História
histórias e conquistas de um expert

Portal Altamontanha.com
http://altamontanha.com/colunas.asp?NewsID=592

Bito Meyer - uma lenda do montanhismo

Bito Meyer que já escalou e conquistou centenas de vias, em todo o país e no exterior ao longo de mais de 40 anos de experiência em montanha, é uma das lendas do montanhismo nacional e sul americano
Bito Meyer foi um dos primeiros brasileiros a escalar montanhas de extrema dificuldade como o Fitz Roy, Cerro Torre e Agulha Poincenot (um dos recordes de velocidade de ascensão mantidos até hoje) na Patagônia, Bolívia, El Captain nos EUA e a ter conquistado em terras brasileiras centenas de vias de escalada por todo o país.
Bito Meyer continua realizando grandes conquistas, como por exemplo a face sul da Pedra Riscada (Veja matéria:
www.brasilvertical.com.br), que é o 5º maior monolito do planeta. A conquista da Via "Cria Cuervos" (7 E5 D6) com seus 1200m de parede que foi realizada ao longo de cinco anos e segundo o próprio Bito foi a via mais difícil e arriscada que ele já conquistou até hoje.
A nova geração de montanhistas deposita grande respeito e admiração por Antônio Carlos Meyer, ou simplesmente Bito, tido como um dos grandes nomes do alpinismo no Brasil. Bito nasceu em Curitiba, em 5 de julho de 1957, filho de Albino Meyer e Odila Meyer, e traz seu apelido, desde os tempos de infância recebendo por ser "meio pesado", o apelido de Chumbito que mais tarde, graças à mania nacional de abreviar tudo, resultou no atual Bito. Até os treze anos de idade, viveu em Alegrete, Rio Grande do Sul, onde vivia em constante contato com a vida ao ar livre, o campo, a fauna e a flora local.Certa ocasião acompanhou o pai numa pescaria, fato que acabou se tornando na faísca que faltava para incendiar a fogueira. Daí para frente a sede de mato era tanta, que resolveu ingressar no escotismo, onde permaneceu alguns meses, até descobrir, que sabia mais que eles. Mais tarde voltou para Curitiba, dando continuidade aos seus estudos. Em janeiro de 1970, num belo fim de semana, resolveu conhecer, em companhia de três colegas, o então desconhecido (para eles) Marumbi. O quarteto resolveu subir o Abrolhos, num passeio que prometia ser um sucesso, se não fosse o fato de na descida, terem entrado na picada do rio seco, que obrigou o destemido quarteto a mais de seis horas de penosa caminhada até chegarem a Estação do Marumbi. Naquele dia, Bito jurara, por tudo que é santo, que não voltaria mais ao Marumbi.De fato, como todo montanhista que se preza, no dia 14 de março voltava ao Conjunto e fazia a sua primeira escalada "técnica", a Bandeirantes no mesmo Abrolhos.Em meados de 1970, Bito e mais alguns amigos, resolveram conhecer o Anhangava. Saíram de Quatro Barras, traçando uma linha reta até algumas paredes que viam a distância e que não tinham a certeza ser o Anhangava, pois ninguém em Quatro Barras, sabia onde era o tal morro Anhangava. Os nativos apenas conheciam o morro da Santa. Na falta de informações mais precisas, saíram transpondo fazendas, casas, riachos, correndo de cachorros, até chegarem as almejadas paredes. Esgotaram todas as possibilidades que as pedras ofereciam escalando sempre com segurança de cima, pois a maioria das vias escaladas não estavam grampeadas.
Daí para frente, não sossegou mais tendo virado todos os cantos da Serra (Serra da Prata, Pico Paraná, Arenitos de São Luiz do Purunã, algumas grutas, etc...) e que culminou com a 1ª Expedição Brasileira em 1973, ao Pico Illimani (Face Oeste) na Bolívia, onde escalou gelo pela primeira vez, acompanhado dos amigos Danilo, Leonel, Inglês. No Brasil, conheceu quase todas as montanhas escaláveis incluindo à "Pássaro de fogo" no Rio de Janeiro, tida como uma das escaladas mais difíceis no Brasil.
Bito é um incansável defensor da "escalada com segurança de cima", pois acredita que este sistema de escalada oferece mais vantagens do que as rotas pré-estabelecidas (grampeadas). A escalada com segurança de cima, oferece condições supremas e de todos os níveis aos montanhistas, que precisa seguir uma linha prefixada, ganhando assim mais liberdade nos movimentos, que por conseqüência tornam-se estes movimentos mais harmônicos. Com este sistema, o montanhista pode escapar naturalmente das situações que a pedra lhe impõe, de acordo com sua situação, condição e capacidade afinal, "a montanha não é um inimigo a enfrentar e sim um amigo a freqüentar".Bito cita o caso da via Principantes (no Anhangava), escalada que muitas vezes subiu em livre com segurança de cima, sem maiores dificuldades, até que um dia colocou-se um verdadeiro paliteiro no local, desvirtuando uma belíssima rota natural. Bito, vêm de um tempo, onde o importante era escalar e conquistar, pouco importando se batia ou não grampos. Hoje em dia, existe a mania de considerar rota conquistada somente as grampeadas, que muitas vezes levam nomes pomposos, e que nem sempre são concluídas, porque seus autores não conseguem entender que alpinismo não é uma coisa doméstica.
Alguns montanhistas infelizmente estão mais interessados em publicidade em torno de seus nomes, em entrarem para a posteridade batizando alguma escalada, do que propriamente, em escalar.Na década passada, Bito recorda-se que o montanhismo era feito "meio na louca", laçava-se grampo, amarrava-se corda na cintura, usava-se de tudo que é meios e artifício para subir, todo mundo se bitolava no Anhangava. Nesta época conheceu Leonel Mendes, com quem iniciou uma parceria que perdurou por muitos anos. Leonel na época, não praticava alpinismo com freqüência, mas tinha sólidos conhecimentos de tudo que se passava no montanhismo europeu e americano, através de revistas e periódicos que recebia.Assim começou uma espécie de intercâmbio de informações onde Leonel entrava com os conhecimentos técnicos e Bito com conhecimentos práticos. A dupla tinha uns lances pitorescos, pois quando iam a montanha, invariavelmente um vestia uma camiseta verde, e outro uma camiseta amarela, o que naturalmente provocara risos e gozações por parte dos colegas. Engraçada ou não, a dobradinha verde-amarela era incansável, e entre outras escaladas fizeram todas as fendas da Esfinge, a Oeste em todas as suas formas e todas as escaladas do Parque do Lineu, também foram escaladas por Bito em solo.A dupla, além de esforçada tinha grandes ideais, pois almejavam atualizar o montanhismo paranaense, colocando-o entre um dos melhores do mundo. Mas esta pretensão, era no sentido de não se submeterem. Bito em muitas ocasiões chegou a passar a imagem de arrogante, por suas posições neste sentido.Esta vontade ferrenha de evoluir e melhorar, levou Bito a pensar na criação de um clube onde aficcionados do esporte, pudessem conversar, trocar idéias e se atualizar. Bito recorda que era frustrante ver os jovens da década passada irem para o Marumbi, passarem seu tempo entre "bebedeiras e mulheradas" enquanto os veteranos dedicavam-se as suas caminhadas, que tampouco interessavam aos jovens. É verdade, que este problema existe hoje em dia, mas com uma diferença fundamental, que entre as "mulheres e bebedeiras" existe um bom grupo de jovens interessados e que praticam alpinismo.O Clube Paranaense de Montanhismo nasceu de uma brincadeira de crianças, um sonho, que aos poucos foi ganhando contornos de realidade. O Clube, passou alguns anos sem ter existência jurídica (estatutos registrados, atas, etc...) mas tinha existência física. Deu-se o nome, criou-se o distintivo, que aliás, foi extraído de um Clube de Montanha do Canadá. Para que o distintivo não fosse exemplo de um plágio gritante, providenciou-se algumas mudanças trocando-se a neve que existe no original por nuvem, e o pinheiro canadense por uma regionalíssima araucária. Bito acha que o Clube atualmente, atingiu uma proporção difícil de acompanhar, talvez por estar afastado algum tempo do Clube pois mora em outro Estado. Mas, apesar de não poder sentir toda a realidade em torno do CPM, acha que o Clube está bem assessorado, e tem bons amigos, como a ADEA, ITC, SUREHMA, SECRETARIA DO INTERIOR entre outros, e isto é muito promissor.Quanto aos sócios, sentiu que a gurizada (que me desculpem) está muito devagar. Falta pique pra moçada. Outro problema é a desunião, formação de alguma "panelinha", autoridade no sentido de ter que esperar uma ordem para aprender, quando a pedra está ali, bastando apenas ir a ela. O pessoal confunde alpinismo com "boulder", que não passa de uma brincadeira para passar o tempo. Quem sobe o meio fio de uma calçada, ou tropeça numa pedra está fazendo "boulder". Que não fiquem perdendo tempo, medindo quem tem melhor técnica pois de nada adianta saber fazer um 10º grau Sup. Se não consegue transcender o menor amor por aquilo que está fazendo.Bito, sempre soube se relacionar muito bem com os jovens, por isso, ao término desta entrevista, solicitamos, que transmitisse um pouco de sua experiência a nova geração de montanhistas, através de algumas palavras. Finalizou esclarecendo que a base de seu entendimento com os jovens, sempre foi o respeito recíproco, e não ficar "podando" os meninos, cada vez que tentam externar sua vontade, não o seguissem, e tampouco copiassem outros alpinistas. Usem de toda a sua espontaneidade e liberdade para criar. E acrescenta, que não coloquem ninguém em pedestais distantes demais, pois a distância acaba impedindo de ver, do que esta pessoa é feita.

Só se aprende a escalar indo a pedra, de outra maneira a coisa não acontece. Ir a um Clube não basta, mesmo porque um Clube somente será de montanha, à medida que seus sócios freqüentarem a montanha. Vençam suas próprias limitações, quebrem seus próprios recordes, lembrando que só vai ser alpinista, quem estiver na pedra. Quando descer, enrolar a corda, a coisa transforma-se em papo e marola. Stamm* já dizia, quem quer escalar "pega a mochila e se manda". Atualmente Bito Meyer reside em São Paulo e mantém junto com Karina Filgueiras o site especializado em escalada Brasil Vertical.

"Eu escalo, simplesmente jogo o jogo, e não como se fosse uma penitência, mas sim, como uma dádiva."

Bito Meyer

Fontes: CPM - Boletim Informativo Bimestral nº 06 - maio/junho de 1985; Site Brasil Vertical*Rudolph Stamm - Um dos grandes nomes do montanhismo paranaense, um dos conquistadores do Pico Paraná, entre outras montanhas do estado.